18 de setembro de 2010

O piano de Alice tem três rostos

Comemoramos o aniversário dois dias depois do dia do aniversário. Mas estava tudo bem. Aliás, sempre está: com toda a família reunida, com toda a ironia do mundo, nesses momentos, tudo está bem.
E eu, fico em silêncio.
- O que mais você toca, Ana Julia?

[pausa no. I - leia-se como o nome de uma orquestra]
Ele nunca toca em meu nome. Sempre que me pergunta alguma coisa, olha no fundo dos meus olhos. Não porque ele me ama, não porque ele quer dizer alguma coisa para mim; mas porque ele quer que eu saiba que a pergunta é pra mim, já que ele não toca em meu nome.
E acho melhor assim.
Meu nome não é tão normal para ser falado em vão. Ou por pessoas vãs.
Mas agora, ele tinha falado meu nome.
[fim da pausa no. I]

- Eu... Acho que quero tocar piano, agora. Ainda não é meu ideal. Mas eu quero.
- Não foi isso que eu perguntei.
- Não quis responder a sua pergunta, desculpa.
- Alice ainda toca piano? - e intrometeu-se na pergunta...

[pausa no. II - leia-se como uma lei]
Ela sempre tentava ajeitar as coisas. Era a menos surda, a mais histérica, e a mais - coitada - bobinha de todas. Tentava ajeitar as coisas do jeito esquisito dela.
O problema é que o jeito esquisito dela era agoniante. Era perfeccionista. Mas não era perfeito como livros arrumados na estante, era perfeito como bacon, ovos e panquecas no café da manhã (se você entende o que eu quis dizer).
Então, ela sempre me interrompia. Antes que eu tacasse fogo no circo, ou na hora do cafezinho.
Somos impacientes.
Os três.
[fim da pausa no. II]

... tentando causar paz - Ela tocava maravilhosamente bem.
- Espero tocar como ela. Mesmo não sendo o piano minha paixão. - completei. assim. com um ponto final bem nítido. bem firme.
- Espero que faça isso também. - completou, tentando não ser desagradável. Não conseguiu.

Aquilo soou mais como uma ironia do que como um elogio. Então, como costumo fazer, me delisguei. E fiquei me vendo, de lado, com um smoking, black tie, vestida de pinguim e com os cabelos soltos. Curtos, ou longos, como estão agora. Tocando como Alice.
E viajei em todas as sinfonias que sabem me fazer chorar. E lembrei da que eu mais gosto. Lembrei de como era bom tocar como Alice.
Eu sei tocar como Alice. Só não sei quando começar.
[isso não é a pausa no. III]

Ouvia copos baterem na mesa, e tons de voz (de cor) subindo. Alcançando meus tímpanos; que agora estavam em outros acordes.
[pausa no. III - leia-se como uma despedida]
Sim, agora eram acordes.
[fim da pausa no. III]
E então, quando olhei para o relógio de novo - ainda nos acordes - vi que já tinham se passado vinte minutos. Exatos. Eram 17h17.
Exatos.
E então, olhei para a última, a mais calada de todas. Mas adora sociabilizar.
Então, éramos quatro tomando café numa longa mesa de vidro. Meu Ego me dizia para me retirar, mas me imaginar vestida de pinguim tomou todas as minhas forças. Num gole só.
E era assim que eu bebia o café.
E olhei para a última de novo. Sorria como se estivesse vendo libélulas em mim. Sorria, só sorria. E eu, pobre de mim: sem forças para retribuir.

Mas, num instante, a imaginação sumiu quando uma pergunta surgiu.
A mais calada se manifestara:
- Do que estão falando?
E nós três, nos mesmos exatos respondemos:
- Do piano de Alice.

Um comentário:

Verônica Maria disse...

nossa, adorei a atualização da foto!

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Ahá.