24 de janeiro de 2010

O Caso da Coisa

Há alguns anos, numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, os jornais estamparam suas capas com a foto de uma Coisa. Ninguém sabia direito o que era aquilo, mas todos tinham uma hipótese. Possuia o tamanho semelhante ao de uma tampa de garrafa de cerveja, e tinha várias cores, vários tons. Consequentemente, vários nomes. Alguns a chamaram de "aquilo", outras de "isso". Mas como nome é substantivo, ficou sendo "Coisa".
A cidade inteira ficou curiosa para saber o que era aquilo, porém, a curiosidade permaneceu por um bom tempo até definirem o que era aquela Coisa. Porém, nem os cientistas que ali apareceram de repente, conseguiram descobrir.
- Mas esses caras são esquizofrênicos! Não veem que isso já não tem vida?! Isso é uma Coisa! E não há nada mais para descobrir! - declarou seu Ricardo
- Mas isso é História, seu Ricardo!
- O fato ou a Coisa? - perguntou Manoel, dono da padaria.
- Os dois! - respondeu D. Fátima, cheia de certeza.
- Pois eu concordo e discordo. Concordo que seja sim um fato histórico, mas para a vida de cada um de nós! Esse caso na vai aparecer no Jornal das 20hrs, e mesmo que aparecesse, seria depois da reportagem de 30 min sobre os benefícios do abacaxi. E, oras, essa coisa não é histórica! Ela não tem boca para falar de qual época veio! Ela nem tem vida!
- Ave Maria, seu Ricardo - aborreceu-se D. Fátima - Os livros não têm boca, ou se quer vida, e falam!
- Eles foram escritos por alguém que possuia as duas coisas. E meu argumento é tão válido, que a senhora só discordou porque meu discurso não foi tão poético quanto a sua frase. Hunf!
- Olha aqui, seu Ricardo...
- Olha aqui a senhora! -interrompeu - Eu hein!
- Acalmem-se! Se querem brigar, briguem fora da minha padaria! - impôs Manoel - Onde já se viu?
Aquele final de tarde foi como todos os outros para D. Fátima, seu Ricardo, Manoel, e para todas as outras pessoas da cidade.

05hrs da manhã. A cidade ainda dormia quando duas caminhonetes invadiram a pequena cidade à procura de uma Coisa.
-  Você achou, Francisco?
- Não, chefe.
- Vamos ter que ir ao prefeito, então.
- Hoje?
- Não, imbecil - retrucou o chefe - Amanhã.
- Mas "o amanhã" é hoje.
- Hã?
- São 5hrs da manhã, sabe? Então, tecnicamente...
- Ah, fique calado.
O chefe e Francisco dirigiram-se ao hotel, e passaram o resto da madrugada lá. Quando eram 14hrs, eles sairam do hotel e, chamando muita atenção por serem desconhecidos e por suas vestimentas diferentes, foram a escritório do prefeito.
- Olá. O que desejam? - o prefeito perguntou, desconfiado
- A Coisa.
- Que Coisa?!
- A Coisa, caramba! - disse o chefe, sem paciência
- Defina "Coisa".
- Coisa? Coisa é uma coisa sem definição!
- Mas deve ter forma, não?
- Mas não tem nome.
- A forma não tem nome?
- Não.
- Então a forma tem nome? - perguntou o prefeito
- Sim! Quer dizer, não! A forma não tem nome.
- Tem cor, ao menos?
- Branco.
- Ah, A Coisa é branca?
- Não.
- Ué! - expressou o prefeito, já sem muita paciencia de continuar aquilo
- Não tem cor..
- Então a coisa é transparente.
- Não! Tem todas as cores!
- Por que disse que é branco, então?
- A soma de todas as cores não é branca? - questionou o chefe
- Esqueça.
- E o tamanho?
- Mais ou menos assim - o chefe juntou o polegar e o indicador da mão direita - Sabe?
- Mas que diabos de Coisa é essa?!
- A Coisa!
- Assim fica difícil, amigo - confessou o prefeito.
- Chefe? - perguntou Francisco
- O que queres?
- Não é A Coisa que está estampada no jornal?
- Onde?
- Ali - Francisco apontou para o jornal que se encontrava no chão do canto da sala do prefeito - Olha...
- Isso! Isso! Isso é a coisa!
- Isso ou A Coisa? - perguntou o prefeito
- Não, isso É A Coisa! Aqui! Na capa do jornal!
- Aaaaaaaaah sim! OK... E para quê você quer isso?
- Porque eu...
- Eu não perguntei porquê. - interrompeu o prefeito - Perguntei para quê.
- Para eu deolver pro dono!
- Mas não é seu?
- Não, é do meu chefe.
- Mas você nao era o chefe?
- Todo chefe tem um chefe!
- Mas eu não sou chefe - disse Francisco
- Fique quieto. - retrucou o chefe - Só quero A Coisa de volta. Onde ela está?
- No museu. - respondeu o prefeito
- Vamos até lá. Agora.

Sem poder evitar, o prefeito acompanhou o chefe e Francisco até o museu. 2hrs depois, os três estavam dentro do museu, de frente pra Coisa, que estava dentro de um vidro sob um pedestal de madeira.
- Tenho nojo dessa Coisa - comentou o prefeito
- Por que? - perguntou o chefe
- Eca! Olha!
- Isso é normal.
- Não... - respondeu o prefeito - Não, pelo menos aqui.
- Bom. Posso levá-lo?
- Não.
- Por que? - o chefe admirou-se
- Isso tem uma taxa?
- Não...
- Pois agora tem. 200 reais.
- Tome, pobre coitado - disse o chefe enquanto tirava o dinheio do bolso -. Agora dê-me A Coisa.
- Aqui está.
- Eca! É nojento mesmo!
- É... - disse o prefeito, num tom meio irônico
- Então, podemos ir, chefe?  - perguntou Francisco
- Segure isso! - disse o chefe entregando A Coisa para Francisco
- Eca! Eerr.. Eca.
- Oras, leve essa Coisa daqui. - ordenou o prefeito
- Não! É feia demais!
- É. Mas o seu chefe quer, não quer?
- Quer. Mas creio que ele goste de coisas mais bonitas.
- Oras... - Francisco pensou alto
- Prefeito, dê-me meus 200 reais.
- Dê-me A Coisa!
- Tome.
- Tome!
- Vamos, chefe?
- Vamos, Francisco.
O chefe saiu confuso do museu e levou consigo Francisco e as caminhonetes.

"O que vou fazer agora?" questinou o prefeito quando viu-se parado só, na porta do museu às 5h:25 da tarde. Foi até a recepção:
- Posso devolver A Coisa? - perguntou para a recepcionista do museu - Posso?
- Desculpe, prefeito. Isto já está registrado como vendido.
- Já? Quem registrou?
- Eu, prefeito. Afinal, você a vendeu para aquele senhor de bigodes.
- Oras! E desde quando se vende peças de museu, pra ter um caderno de registros e tudo?
- Desde quando o senhor aprovou o abaixoassinado que o seu Ricardo fez, dizendo que os objetos que aqui estão só têm valor Histórico, o que ele disse que não importa muito. Algo assim.
- Quando que eu aprovei isso? - perguntou o prefeito, apavorado - Quando?!
- No início da campanha, senhor.
- Nossa.
- É - concordou a recepcionista
- Boa noite. - o prefeito despediu-se

O prefeito saiu do museu e dirigiu-se à sua casa, onde chegou quando, finalmente, escureceu. Entrou em casa, fechou a porta e encostu na parede com A Coisa na mão. Andou em volta da mesa de madeira da sala, e às 18hrs em ponto, apoiou o braço direito na mesa e percebeu que estava bamba. Olhou pra o pé torto da mesa e pensou "por que não?". Abaixou-se lentamente. Com o braço direito, empurrou a mesa e colocou A Coisa no chão. Levantou-se, levantou a mesa com um pouco de esforço, e apoiou o pé torto sobre A Coisa. A mesa já não era mais bamba.
- Ufa - sussurou  o prefeito
- O que foi? - perguntou a mulher do prefeito, penteando os cabelos
- Cansaço, querida, cansaço.
- Hm... Hoje fui cortar cabelo. Reparou na cor nova? É uma mistura de vermelho com marrom, que se chama vermelho amendoado e... O que é isso?
- Isso o quê?
- Essa Coisa debaixo da mesa.
- Ah, é A Coisa que não deixa a mesa bamba.



História fictícia, feita em parceria com dona Marianna. Não quis insinuar nada sobre os mineiros, os prefeitos, os chefes, os Franciscos, e nhe nhe nhe.


OBS.: O post do dia anterior não é uma frase ateia.

Um comentário:

!)Lucas Monteiro(! disse...

Parabéns Ana! Muito boa a sua historia, a narrativa, como se desenvolve, eh um conto!Gostei muito mesmo!
E a respeito do silêncio, não quero que o mundo fique mudo, é só o silêncio como reflexão pessoal, uma forma de contado com Deus, de busca e também de aperfeiçoamento, uma maneira de nós calarmos diante do mundo não sendo omissos, pelo contrario, pois o silêncio diz mais as vezes, e também falamos com um olhar!

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Ahá.