23 de maio de 2013

Brasiliense

Eu gosto muito do mar.
Mas gosto mais de você.

















mentira.




cc
coisa linda sound  system

8 de maio de 2013

Jorge Ben

não está me deixando sossegada
será que ele não sabe que eu fico acordada pensando nele, todo dia, toda hora?
passando pela minha janela todo dia, toda hora?
sabendo que eu fico a olhar...


com malícia.


a sua pele preeeeetaaaa.
com malícia.




será que quando eu fico acordada pensando nele, ele pensa um pouco em mim?


um pouco em mim?
com malícia?

6 de maio de 2013

amores perros

ele ficou com o livro do sartre
e eu com o cd do cólera



tô esperando de volta até hoje

25 de abril de 2013

sussuarana

alemão e russo
também fica triste
mas mais triste que brasileiro
não existe

com voz velha grave
voz velha aguda
a tristeza brasileira
é doída, miúda,
silenciosa
muda

tem som de violão
de choro
de palma
a tristeza brasileira
tem gosto de barro
de madeira
de sonho menino
e de homem decepção

alemão e russo
também fica triste
mas mais triste que brasileiro
não existe

brasil tem tanta poesia
mas algumas só o santo sabe
a saudade que deixaram no canto
não dá em verso
não dá em frase
mas em soluço
cabe.

alemão e russo
também fica triste
mas só o brasileiro
tem tristeza que pesa.

verdadeiro,
palavra errada,
pra mode doer
em quem também
é brasileiro.

21 de abril de 2013

Eu esperei por esta noite uma semana

Café quente e sem açúcar no copo de vidro é a coisa que mais lembra minha infância no Rio de Janeiro.
Descíamos para tomar café da manhã numa padaria que ficava na esquina de casa. O bairro cheio de árvores e gente saudável trazia bom humor. Até o homem bêbado que sempre estava na quina de alguns prédios era bem humorado. Deve ser por conta do sol: estava sempre radiante. E quando chovia... Bem, não lembro de ter chovido um dia sequer na minha infância.

A padaria era bem simples. E pouco charmosa, para ser sincera. É o que nós chamamos hoje de pé sujo, mas nestes anos eu chamava de restaurante. Não serviam arroz ou feijão naquele lugar, mas serviam o melhor misto quente e café que já provei em todos essas primaveras que me acompanham. Sou incerta quanto ao adjetivo de "melhor" misto quente e café, já que provei vários - e hei de provar mais. Mas só aquele café fazia eu sentir o gosto ruim que tinha. Amarguíssssssssimo. Às vezes, até fechava os olhos e prendia a respiração para o café com gosto de gente adulta descer.
Mas quando eu conseguia manter os olhos abertos, eles estavam concentrados nos azulejos portugueses que decoravam a parede. Legítimos azulejos azuis e portugueses. Alguns lascados, principalmente os que ficavam atrás da chapa quente. Estavam lá há anos, e ainda persistiriam por mais alguns (ainda bem!).

Aposto que eu e o dono da padaria sentíamos o mesmo carinho por ela. Afinal, ela nos fornecia o pão de cada dia. Me ensinou a gostar de café ruim, digo, amargo e de um bom misto quente domingo de manhã.
Engraçado, lembro-me que o café era ruim no começo e pior no final. Não sei o porquê. Acho que toda a concentração de café ficava no final do copo. Então a coisa mais deliciosa dos finais de semana da padaria eram o meio do misto quente (onde tinha mais queijo) e o meio do café (onde tinha menos café). Isso tudo no começo dos domingos.
O copo esquentava e mal dava para se pegar, tampouco com mãos minúsculas como eram as minhas, e era incrível como os homens formados, magros, escuros, mas de braço forte conseguiam pegar o copo de mão cheia. Mesmo saindo fumaça e tudo.
Obviamente, eu desconhecia o que são os calos e as insensibilidades da pele.

Hoje eu até quase consigo segurar de mão cheia.
Quase.






19 de abril de 2013

Anadotas de quem é sincero

I

Estava eu chegando em casa depois de um exaustivo dia. Por estar saindo do estúdio, carregava meu violão num case enorme e alguns cabos que não cabiam na mochila. De chinelo, short e toda suada, passo na frente de um bar. Um senhor beberrão grita:
- Nossa, você toca? Eu também toco, vamos tocar juntos!

Nem ouso olhar para o sujeito e continuo andando. Atravesso a comercial e vejo já o meu prédio.
Um homem passa por mim e diz, aleatoriamente:
- Eu também toco! Mas toco de ouvido, não precisei de aula com professor não.
- Poxa, cara, que bacana! Me ensina! - respondi sorrindo, meio sem graça.
- Quem sabe um dia...! - proferiu o rapaz, sem parar de andar.

Chego, enfim, na última rua para chegar à minha casa.
Num dos bancos que ficam em frente ao bloco, estava sentada uma senhora que está sempre bem arrumada e passeando pela quadra, com jóias. Há anos ela faz a mesma coisa todos os dias. Morei fora, voltei, e ela continua lá. Finíssima.
Durante toda minha infância pensei que ela esperasse alguém. Mas hoje acho que ela quer arrumar um namorado.
Passei na frente do banco suando mais do que suei o dia inteiro. Desesperada para chegar em casa.
- Psiu! - a senhora me chama - Ei, psiu!
- Oi? - olho para senhora sem muita expectativa.
- Você toca violão?
- Toco sim.
- Acho lindo mulher que toca violão. Lindo.
- Obrigada, poxa. - disse, sem graça (porque não sei receber elogios, desta vez).
- Espero que continue tocando até o resto de sua vida, minha filha. Assim você terá todos os homens na sua mão.
- Obrigada, obrigada! - sorri grande.

Tomara, minha senhora.
Tomara.


II

Sexta-feira. Entrei no ônibus e percebi que estava cheio de rapazes bonitos. Mas sem muita expectativa, sentei na frente de um deles.
Distraía-me com a W3 sul quando o rapaz que estava atrás de mim me cutuca:
- Nossa, moça, qual é o nome do seu perfume?
- Putz, sabe que eu não sei?! Mas é um nacional, da Boticário, eu acho.
- Sério? É tão bom, adorei. Na verdade é tão bom que parece importado.
Ri mas fiquei reticente. Agradeci o elogio e virei para frente.
Escuto de supetão, baixinho, uns outros rapazes atrás dele comentarem:
"Nossa, que bicho burro! Pergunta o nome do perfume mas não pergunta o nome da menina".

Ri.


III

Fui comprar pão de manhãzinha na padaria perto de casa. Na fila, sedo o lugar para uma idosa de cabelos brancos e chinelo confortável de pano.
Olhando para minha tatuagem na coxa, a dona pergunta:
- Olha, isso daí não doeu não?
- Hein? - pedi que repetisse
- Isso daí, esse negócio aí na sua perna. O que é?
- Ah, é uma caravela. - levantei um pouco do short para que ela pudesse ver melhor. - Vê?
- Ah, tá. E esse negócio aí não doeu não?
- Olha, doer doeu. Mas é totalmente aguentável e eu n...
- ... Credo, Deus me livre. - fui interrompida - Essa juventude tá toda bagunçada.
E a senhora vira pra frente, prestes a ser atendida.
Pede alguns pães e eu volto ao jornal que estava lendo antes disto tudo começar.
Ela pega os pães e antes de sair dá uma última olhada na minha tatuagem. Faz uma cara de desgosto e conclui:
- Mas se te faz feliz, né?
E sai andando em passos apertados.




Mas se te faz feliz.
Então continue fazendo.

16 de abril de 2013

Fazer a barra da calça

Me choca a pequenez humana.
Nosso presente é tão minúsculo quanto nós.
Quanto mais se sonha, menos se tem.
E o futuro é só o resto do Ego que nos resta.

Me choca a pequenez humana.
só falta ajeitar o cós,
a calça veste bem.
no final das contas, esta costureira é única que presta




A pequenez humana é um fio de lã passando no buraquinho da agulha

4 de abril de 2013

Anadota problemática de quarta-feira

I

Saí 30 minutos mais cedo do trabalho e coloquei na mente que aproveitaria tais minutos para resolver alguns problemas. Escolhi resolver o problema das camisas brancas: não as tenho. Queria algumas simples, sem estampa ou "gola V". De algodão, de preferência. Descobri que são vendidas por preço razoável nas Lojas Americanas.
Então, nesses 30 minutos livres, eu ia à Lojas Americanas.

Mas se você também trabalha numa rua movimentada, sabe que um tanto desse tempo é insignificante. E se você, além de trabalhar numa rua movimentada, também depende de ônibus, sabe que esse tempo é completamente insignificante.

Então foi tudo ilusão. Gastei todo o tempo dentro de um ônibus fedorento e quebrado. Presa no engarrafamento. Lendo Cortázar, que é pra dar mais dor de cabeça.
Não desisti. Cheguei ao shopping, comprei as camisas. Coisa rápida. (Quero dizer, "rápida". Lembre que eu estava em uma filial do shopping mais popular da cidade da Lojas Americanas, às 18 horas. Entenda).

Me deu fome.
Quis porque quis um milkshake enorme de ovomaltine. Mas estou de dieta, e tentando seguí-la. Me vi então pedindo um suco de abacaxi com gengibre num restaurante natural (ó!), quando, de repente:
- CPF na nota? - pergunta a caixa
- Quero não.
- Só um minutinho, tá bom?
- Tá. - respondo pegando a nota fiscal.

Sento em uma das mesas da praça de alimentação, bem em frente ao balcão que fui atendida. A caixa carrega o papel com meu pedido até a cozinha do restaurante.
Espero alguns minutos jogando qualquer coisa no celular. Sai a caixa da cozinha, batendo a porta, voltando ao caixa em lágrimas.
Me chamou atenção mas voltei ao jogo.
Daí que saí a possível cozinheira louca, com uma faca na mão. E um homem atrás, assustadíssimo.
- Eu vou te matar, sua piranha!
- Então mata, vai! Aqui, ó! - disse a caixa apontando para o próprio pescoço. A praça de alimentação vira um centro de rostos assustados e silêncio, pleno silêncio, silêncio que faz uma criança curiosa ao descobrir algo. Me levantei e já ia desistindo do suco, pegando minha bolsa e reclamando em perder sete reais assim. Mas a cozinheira maluca não deixou. Aos prantos, ela pergunta:
- De quem é esse suco?!
Parei e olhei para ela, já perto da escada rolante.
Ela repete:
- De quem é esse suco?! - e joga o suco no chão. Volta a ameaçar a caixa - Olha aqui, minha filha, tu tava me testando. Se você tá achando que aqui as coisas são assim, vou te mostrar como são. Estagiariazinha.
- O que que foi, minha filha? Não quer me matar? Estou aqui esperando, ó! - aos berros, encorajando a cena do crime. O homem tentou segurar a mão da mulher com a faca e levou um soco. Um cruzado, propriamente dizendo. Eu, parada na escada rolante, vendo meu suco no chão, fui empurrada por um monte de seguranças. Que receberam outros tapas.
Certeira, a possível cozinheira fez com que um desses tapas pegasse na caixa.
Aí a coisa ficou feia e alguns homens que assistiam à cena começaram a gritar.
Os dois ou três seguranças pouco podiam fazer para separar as duas moças loucas e, por alguma razão, a cozinheira insistia em perguntar:
- De quem é esse suco?

Eu não sabia se respondia ou não. Se permanecia lá quieta, se respondia de lá, se ia lá responder, se largava tudo e ia pra casa. Fiquei sem reação simplesmente porque sabia que era meu suco. E não faço ideia da quantidade de problemas que um suco pode gerar.
Até então.

Um dos seguranças conseguiu acalmar a caixa, que respirava fundo e chorava, chorava. Sabe-se lá porquê.
A mulher da faca ameaçou todos que estavam olhando de morte, ao segurança e à caixa. Tirou o avental, pegou a bolsa, largou a faca e saiu chorando, correndo.
Os homens que gritavam gritaram de novo.
Desci as escadas rolantes um tanto ainda assustada, confusa.

Me sentirei culpada até quarta-feira que vem.

Às vezes temos que nos permitir sair da dieta.





obs
algumas frases e palavrões foram excluídos do diálogo a fim de manter o bem estar social

26 de março de 2013

Abobrinhas

Pré Psicopata ainda é um nome muito adolescente pra mim. Não que eu ainda não tenha um quê de adolescente rebelde, mimado e teimoso, mas agora eu ando pagando minhas contas então me dei o direito de ser rebelde, mimada e teimosa.
Não cresci tudo ainda. Calma.
Mas agora qualquer tipo de lamentaçãozinha babaca é melosa e chata, acaba virando abobrinha.

Então cresçamos.
Não mudarei a url porque sei que tem gente que, apesar de não comentar (nunca há comentários aqui), me visitam sempre (vide "estatísticas"). E quero que continuem assim.
Os ouvintes silenciosos são os melhores.



Vamos ver quanto tempo de ladainha isso aqui aguenta.

25 de março de 2013

Vinícius de Moraes

um pouco de infelicidade
não faz mal a ninguém

15 de março de 2013

Simples

se nasces
cresces
e morres
existiu
se nasces
cresces
justificas o nascer
e morre
viveu

13 de março de 2013

Anadota pra você interpretar como quiser, mesmo que eu sugira tal interpretação no final

I

Hoje, ou há alguma uma hora atrás (escrevo logo senão esqueço), peguei o quarto ônibus do dia para ir ao trabalho. Paguei a taxa de 1,50 reais - mais barato que a maioria dos outros ônibus aqui em Brasília, que chegam até 3,00.
Neste ônibus embarcam muitas pessoas diferentes, pois além de fazer todo o Eixo Monumental (nos leva aos Ministérios e outros prédios de responsabilidade Federal e Governamental) ele passa pela Nova Rodoviária. Esta, construída há não muito tempo atrás, possui linhas para o resto do Brasil. Logo, pego ônibus com engravatados e mal-trapilhos, por assim comparar.
Por acaso, escolhi o assento mais perto do cobrador. Apoiei os pés nos ferros que sustentam a cadeira dele, e voltei ao livro que estava lendo. Pessoas embarcando, todas elas diferentes e sem parar. Porém, dado um momento, a fila parou. Senti a diferença mas não quis erguer os olhos para observá-la. Não tinha porquê, até eu ouvir a voz rouca de uma senhorinha muito mais baixa que eu (veja bem, tenho 1,63) tentando se sobrepor à voz do cobrador (esta, grave e em tom chulo). A senhorinha se encaixava no grupo dos mal-trapilhos, sem dúvida. Carregava um saco de lixo preto cheio de não-sei-o-quê numa mão, e na outra uma pasta amarela que parecia ter todos os seus documentos dentro. Calçava chinelo e usava lenço na cabeça.
Gaga, a senhorinha pedia uma resposta ao cobrador:
- Es-es-es-este ô-ô-ô-ônibus vai para a no-no-nova rodoviá-á-ária, hein, moço?!
- Vai não, minha filha, já lhe disse.
- Ma-ma-mas o moço disse, lá fora, que ia!
- Ele errou. Não vai. Agora desça, vá.
E gaguejando, reperguntou ao moço se ia à Nova Rodoviária. O homem apoiou a mão na testa e soltou um suspiro esbaforido, lamentando.
A essa altura, eu já tinha erguido a cabeça para ver o que acontecera. Como todos os passageiros, eu permanecia calada e alheia à situação, mesmo sabendo que o ônibus ia sim à Nova Rodoviária. Depois me lembrei que estes motorista e cobrador sempre rejeitavam pedintes. Mas não tinha até então entendido o porquê d'ele achar que ela era pedinte, afinal de contas, apesar de mal vestida, não apresentava nenhum indício de que não poderia (ou conseguiria) pagar passagem. Seria muita pretensão pensarmos isso.*
Ela permanecia em pé, com o saco e a pasta em mãos. Esperando uma resposta. O motorista ainda não tinha chegado. Os passageiros, assim como eu, estavam apreensivos.
A mulher tenta gritar, mas por ser rouca não consegue. Acaba gaguejando mais ainda, e exigindo uma resposta:
- Mas su-su-su-sua mãe nããããããão lhe deu educação?!? Por que nãã-ão me re-re-re-re-re-responde?! Só po-po-po-por que eu não sei ler?!

Depois dessa última indagação, meu coração deu uma leve disparada -  e eu tenho certeza que não foi pela quantidade estúpida de café puro, preto e quente que tinha tomado há um tempo atrás - embora não saiba o motivo.
Levantei para que a senhora me visse. Respondi, em alto em bom tom (como de costume):
- Vai à Nova Rodoviária sim, minha senhora.
Sentei.
Voltei ao livro. Mas é óbvio que não estava prestando atenção alguma na história.
"Puta que te pariu", sussurrou o cobrador. A senhora ficou sem resposta.
Não me agradeceu, nem me xingou. Nem a mim nem à minha quinta geração, como deve ter feito o cobrador, mesmo que mentalmente.
O motorista chegou e ligou o motor. A senhorinha abriu a pasta e fez com que o cobrador tirasse R$ 1,50 de 50 reais. O cobrador jogou o dinheiro em cima da mesinha de plástico.

Seguimos o caminho, minha parada chegou e a senhorinha estava sentada no último banco do ônibus, olhando a janela.

Como ela conseguiu cinquenta reais, não aprender a ler, ou fazer com que, possivelmente, todos os pertences dela caibam num saco preto de lixo eu não sei.
Também não faço a menor ideia de pra onde ela vai. De onde ela veio.
Tampouco quero saber.
Só que, se esclarecermos a dúvida do mundo - ainda mais o nosso, que é teimoso e velho - acredito que este gasta menos tempo para chegar ao seu destino.



somos todos passageiros
até o cobrador e o motorista



*Não que não sejamos pretensiosos. Mas é muita pretensão dizer que somos.

11 de março de 2013

Objetivos

Assim que acordava e percebia que ele não estava ao meu lado, não me preocupava. Estava na cozinha.
Levantava vagarosamente da cama, me espreguiçando, com os olhos pouco abertos por causa da singela abertura das cortinas. O sol batia leve, me dava a certeza da manhã.
Ia ao banheiro e encontrava sua escova de dentes em cima da pia. Sempre fora mais rápido, disposto e saudável que eu pela manhã. E isso não me incomodava. Lavava meu rosto ainda cautelosamente, escovava os dentes e tomava um banho rápido, não muito quente e não muito frio, embora o vapor tomasse conta do banheiro.
Sem pressa, vestia qualquer blusa branca maior que eu, pegava meu violão e ia para cozinha.

Às vezes tinha vontade de fumar lá. Mas os odores que ele criava me desestimulavam e faziam ter vergonha dos cigarros de palha. Gostava de tocar samba e alguns chorinhos enquanto ele enfarinhava a mão antes mesmo do meio dia. Quebrava os ovos enquanto cantava e arranhava a garganta com a rouquidão. Sorríamos mesmo sem saber porquê, mesmo tendo que limpar o leite que caíra no chão branco, mesmo quando ele me dava uma colher de geleia caseira e eu achava azeda.
Ele sentava e tomava algumas xícaras de café comigo, batucando na caixinha de fósforo. E o sol lá. E o forno lá. Não percebíamos o frio por causa do calor dos bolos, e não percebíamos o calor por causa da frescas saladas de frutas. Tudo era estável e exalava verão.

Mas às vezes as coisas queimam e os pratos sujam. Nem sempre eu acordava de bom humor e houveram dias em que ele não estava na cozinha quando acordei. Hoje nós dois bebemos cerveja amarga em lugares distintos da cidade.

7 de março de 2013

Mocinha

a mão cheia de manteiga
a palma dos dedos 
enrolar brigadeiro

o coração cheio de
a ponta dos dedos
enrolar teu cabelo

4 de março de 2013

((((((monday im in love))))))

Entrei em casa e fui direto ao banheiro. A televisão na sala estava ligada e em alto e bom som. Não fechei a porta do banheiro nem acendi todas as luzes, apenas abri a água quente da torneira para poder lavar meus rostos e mãos. Me olhei o espelho. Condenei a mim mesma a duzentas abdominais por ter comido os três pãezinhos de queijo hoje durante o expediente.
Ouvia, da cozinha, um barulho. Não sabia ao certo se eram passos ou os ovos fritando. Possivelmente os dois. Quando saio do cinema gosto de silêncio, para poder sentir a tal da depressão pós filme a fundo.
E o de hoje foi Hitchcock.

Me fez seriamente crer que eu só consiga ter sucesso em todos os sentidos da vida quando conseguir achar uma pessoa companheira. Não um amante, apaixonado, esposo. Um admirador.
Porque, particularmente, eu não sou das pessoas mais normais do mundo. Muito pelo contrário. Considero-me até um tanto estouradinha, teimosa e preguiçosa demais. Não sou tão fácil de lidar quanto parece. Talvez por isso eu tenha, seriamente (repito) acreditado nisso.
Mas coisíssima nenhuma. Estou me apaixonando a cada esquina, a cada filme, a cada cheiro. Se souber de algo torno a escrever de novo.

Eis que o barulho cessa e ouço uma voz grossa, masculina:
- Ana Julia? É você?
Não respondo imediatamente por estar com o rosto imerso na água quente. Levanto e com paciência torno a conversar:
- Sim!
- Tu chegou tarde hoje.
- Mas cheguei, ham?

Enxuguei o rosto e abri os botões e zíper da calça preta de brim. Minha favorita, talvez a que use mais, embora ela esteja começando a rasgar na parte interna das coxas. "Malditas coxas grossas", pensei. Dupliquei meus castigos abdominais.
Tirei a calça e dei uma olhada nas celulites, na tatuagem nova. 

Mas chega de abdominais.

Joguei a calça no chão e ao fazê-lo percebi que tinha esquecido o maço de cigarros dentro do bolso traseiro. Ando meio Constantine esses dias. E isso não interessa.
O homem de voz grossa andou pelo corredor para me ver e deu um sorriso:
- Você parece irritada.
- É?
- É por causa do seu aniversário, da sua tatuagem, ou por que eu descobri que você anda fumando que nem uma infeliz por aí?
Dei um sorriso encabulado:
- É que é segunda.

1 de março de 2013

Observação que me surgiu enquanto almoçava hoje

O problema de matar alguém não é o processo judicial, seu rosto no noticiário da televisão ou as pessoas olhando estranho pra você na rua. O problema de matar alguém não é nem ter que arquitetar um plano dificultoso para que você não seja pego: isso é fácil hoje em dia. Tampouco inventar um atestado médico que diga que você tem problemas mentais. Talvez seja até melhor ser sincero e dizer que a vítima, sem mais nem menos, é filha da puta. Porque nem todo mundo hoje em dia é filha da puta, mas ainda assim, tem muita gente merecendo ser empurrada da escada como nós aprendemos desde crianças, nas novelas mexicanas.
O problema de matar alguém não é sua mãe se lamentando de como criou você errado. Nem mesmo a consciência pesada nas primeiras semanas depois do assassinato: tratamento psicológico existe e tem funcionado com muita gente, sabe? Não é problema nem querer matar mais gente depois do primeiro assassinato: tem filha da puta à bessa! E cada morte pode ser de um jeito diferente. Cada um mais criativo que o outro, quem sabe. É só esperar a inspiração vir.
Pra quê se preocupar com as consequências de um assassinato quando o que te afinge já morreu? 
O problema de matar alguém é que todo filho da puta é, primeiramente, filho.







.

26 de fevereiro de 2013

linguística

Não sei porque diabos são classificados
Até entendo, somos tão desorganizados
Mas quando queremos ser soltos
Somos errados

21 de fevereiro de 2013

[passagem]

Encontrei o moço bonito que trabalha na sala ao lado na copa, como raramente acontece.
Esticamos o braço para encher os copos de plástico no mesmo instante. Cavalheiro, como sempre, deixou que eu me servisse primeiro. Agradeci com um sorriso canto-de-boca.
- Sem açúcar? - ele perguntou com um outro sorriso, agora mostrando os dentes, olhando nos meus olhos, enquanto eu me servia com a pressa de não incomodá-lo
- Sem açúcar. - respondi, também mostrando os dentes.

Tomei um gole do café quente e, ainda sorrindo, saí.


[continuei sorrindo até chegar à minha sala]

19 de fevereiro de 2013

dezenove de ferveireiro

desde o ano passado
até agora
mudei 50 dias

12 de fevereiro de 2013

festa da carne

Não trata com prepotência quem te trata como alguém.
Não sei ser fria assim.
O problema de dormir com alguém é que depois você acorda.


Verdade, nem sempre este vai continuar lá.
Mas na maioria das vezes está.


Está o suficiente para que um dos dois, dos três, dos quatro e dos doze saia no mínimo prepotente.





Eu quero sossego.







E estou sofrendo, morrendo e moída de saudade dos meus pais.

8 de fevereiro de 2013

cest la vie

se tudo o que
você recusa
tudo bem
eu entendo
mas seu
ainda está na minha
blusa

4 de fevereiro de 2013

amanhã eu trabalho

o sono come
a vontade de pensar
e a vontade de pensar
se vinga tão logo

3 de fevereiro de 2013

moço

me leva pra ver o mar
me leva





30 de janeiro de 2013

Anadota #5

1

Ontem fui ao shopping e entrei numa dessas lojas de departamento. Logo, surge uma funcionária me abordando:
- Vamos fazer o cartão da loja?
- Hoje não, obrigada. - e continuei andando. Ela me segue:
- Você já é "de maior"?
- Aham. - respondi sem parar de andar
- Então, é desconto, amiga!
- Hoje não, obrigada, moça.
Ela então olha para o meu crachá do trabalho que esqueci de tirar quando saí e então para de me seguir. Continuei andando e então, a alguns passos de distância, ela pergunta:
- Recusando desconto? Tá ganhando tanto assim, amiga?
Parei de andar, virei. E de longe respondi.
- Estou, amiga.


Nem tô.



2

Voltando para casa num desses ônibus lotados com cheiro de trabalhador, com meus fones gigantes ouvindo música no volume máximo. O que não significa muita coisa dentro de um ônibus, convenhamos.
Depois de meio caminho em pé, consigo um lugar para sentar ao lado de um homem magro, com diastemas e camisa social.
- Licença - eu disse ao sentar.
Mais um pouco do caminho, a música continuando e as pessoas descendo, o homem pergunta:
- Menina, o que é isso que você está ouvindo? - "menina", pensei. Aliás, foi a única parte que ouvi. Tirei os fones de ouvido:
- Oi?
- O que é isso que você está ouvindo?
- É Vivaldi, eu acho. "O Inverno", d'As Quatro Estações.
- Eu hein.


3

Fazendo a unha num salão de beleza, a televisão ligada e muitas mulheres.
O noticiário informa a mudança da Lei Seca. A repórter disse que "não importa a porcentagem, até um bombom de licor e a influência do álcool no seu sangue pode fazer com que você pague multa ou responda a um processo".
Uma moça que estava fazendo escova no cabelo, perguntou:
- Mas o que foi que ela disse?
E a cabeleireira respondeu:
- Que agora até um bombom de licor, com álcool, pode fazer você rodar no teste do bafômetro. Não importa quantos decibéis tenha.
E a moça reage:
- Nossa! Mas eles estão fogo mesmo, hein?


16 de janeiro de 2013

Anadotas #?

1

Das utilidades masculinas destaco fechar os botões do vestido.
No decote das costas,
ou no decote do busto.


2

Onde trabalho as salas são separadas por uma divisória. Enquanto sinto o cheiro das torradas com requeijão e geleia de lá, uma moça magra e nariguda me oferece biscoitos de água e sal daqui.
Aceito e como de olhos fechados ou recuso e arrisco?
Ah, como a vida é cheia de dilemas.


3

It's 2013, bitch.

9 de dezembro de 2012

Geração

A verdade é que, quando escondo um sentimento, sinto dificuldade de conversar olhando nos olhos. Ainda mais se este sentimento me incomoda; ainda mais se é recorrente.
Pense num sentimento deste por um familiar.

Nunca me dei muito bem com meus avós e nunca entendi direito a maneira que eles vivem. Não é incomum, mas também não é comum demais. Apesar de entender e, por isso mesmo, não poder criticar a maneira que eles pensam, creio que alguns comentários, ações e fatos poderiam ser evitados se às vezes houvesse esforço. 

Mas isso não vem ao caso.

Como familiar, mesmo teimosa e nervosinha que sou, tenho de ir na casa deles. E que casa. Não sei se por serem meus avós, me deixam plantar algumas flores no quintal. Há lá seus pontos positivos.
Não posso reclamar, na verdade, apesar de fazê-lo. Tive a sorte de possuir duas avós, e ambas cozinharem excelentíssimamente bem. Não ouso não comer quando vou visitá-las.
E se minha avó tinha uma missão na Terra, ela a compriu: desenvolver a receita do melhor pão de mel do mundo. E claro, ser mãe do meu pai, para o meu pai me ter.

Mas isso não vem ao caso também.

Quando vou visitá-la e como pão de mel e visito minhas flores, nós sentamos e conversamos. E a menos que ela esteja contando uma piada ou história divertida, eu não consigo olhar em seus olhos.
Não sei ao certo o que me incomoda assim - e nem tenho a ousadia de descobrir, deixo como está - mas hoje ela perguntou porque não o conseguia.  Neste momento, desencostei a xícara de café dos lábios, e tentando proferir alguma coisa... Não saiu nada.
Não tem porquê.
Tentei dar uma desculpa qualquer, fazer ela rir, "quebrar o gelo", como dizem por aí. Mas não veio.
Entre tantas reticências da minha fala, finalizei: "deve ser algo da minha infância. Mas passou, estamos aqui. Não vem ao caso, sim?"

8 de dezembro de 2012

Chicólatras

Não gosto e por isso não quero se quer parecer com aquelas estudantes de Letras que veneram Chico Buarque e resumem o sexo a Bukowski (apesar de adorar ambos), mas fico tremendamente orgulhosa e inspirada de poder compreender - e sentir - tal façanha:



30 de novembro de 2012

doo voo

I (principal)

ele mudou
e eu continuo tão
saiu fotografando
e eu observo
ela é linda
mas eu sou tão mais
teu nome é outro
sei todos de cor
você é azul
e minha palidez

é que ela é linda
mas eu sou tão mais

tua


 II (outro)
Não sei se por criação ou por determinação divina, me atrai o oposto, é do oposto que eu gosto, e concluo que é do oposto onde o bom surge. O bom do oposto está na mão que percorre e nos pêlos do rosto que afagam; está na voz grossa e no constrangimento em chorar em público, no gosto musical agressivo e na força que se esconde atrás de uma cantada barata. O bom do oposto está dentro das calças, sob tutela de panos e zíper. O bom do oposto é a oposição ao tudo que se julga meu semelhante; aos dramas, às carências, aos momentos e aos seios.
O bom do oposto é chamá-lo de ele. E ele não aumentar nem diminuir; não definir e ainda assim saber de quem se trata. É conjugar todos os adjetivos de forma que seja oposta a mim.
O bom do oposto é a delicadeza, ainda assim. É chamá-lo de ele e, de repente, ver o constranger do chorar em público desaparecer e, então, entrar no seu íntimo.
É o medo de perder. De ter feito trabalho em vão. De não ser reconhecido; ou de estar sozinho.

O bom do oposto, assim como qualquer melhor vinho, perfume, filme e travesseiro, é sentí-lo.


III  (final)
não se apaixone, menina
por quem só quer te comer

21 de novembro de 2012

Oração (incompleto)

Ela jurava de pé junto que a outra, a vizinha, fazia o que fazia porque era macumbeira. Se comprava uma raspadinha na banca, e com qualquer moeda de cinco centavos a raspava, era ganhadora.
Era a única a acertar e ganhar os maiores prêmios do bingo. Nos Bailes dos Eternos Enamorados, era sempre - e ela deixava claro o sempre - a Rainha do Baile.
Tinha o casamento mais duradouro do bairro; a mais jovem a se casar. Dizia para todos os vizinhos que o marido nunca a traíra, que o marido sempre lavava a louça e buscava as crianças no colégio.

Ela jurava de pé junto que não era inveja. E se, em alguma hipótese, mencionávamos a palavra inveja, causava rebuliço. Não aceitava que tivesse inveja de uma macumbeira. Muito menos da vizinha macumbeira da casa vinte e cinco, a última da rua.

Nos domingos de manhã, onde todo o povo do bairro se dirigia cedinho para a igreja, a vizinha estava no quintal da frente cuidando da sua pequena horta que, segundo ela, seu marido fez.
Não se importava com religião nem com igreja, nem com o que Deus ou as pessoas pensavam dela. Gostava de deixar claro o que tinha e como tinha feito para tê-lo. Mas é claro que, quem jura de pé junto que é macumba, não ouve o principal.

10 de novembro de 2012

tédio

(...)