Mostrando postagens com marcador anadotas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anadotas. Mostrar todas as postagens
25 de junho de 2014
19 de abril de 2013
Anadotas de quem é sincero
I
Estava eu chegando em casa depois de um exaustivo dia. Por estar saindo do estúdio, carregava meu violão num case enorme e alguns cabos que não cabiam na mochila. De chinelo, short e toda suada, passo na frente de um bar. Um senhor beberrão grita:
- Nossa, você toca? Eu também toco, vamos tocar juntos!
Nem ouso olhar para o sujeito e continuo andando. Atravesso a comercial e vejo já o meu prédio.
Um homem passa por mim e diz, aleatoriamente:
- Eu também toco! Mas toco de ouvido, não precisei de aula com professor não.
- Poxa, cara, que bacana! Me ensina! - respondi sorrindo, meio sem graça.
- Quem sabe um dia...! - proferiu o rapaz, sem parar de andar.
Chego, enfim, na última rua para chegar à minha casa.
Num dos bancos que ficam em frente ao bloco, estava sentada uma senhora que está sempre bem arrumada e passeando pela quadra, com jóias. Há anos ela faz a mesma coisa todos os dias. Morei fora, voltei, e ela continua lá. Finíssima.
Durante toda minha infância pensei que ela esperasse alguém. Mas hoje acho que ela quer arrumar um namorado.
Passei na frente do banco suando mais do que suei o dia inteiro. Desesperada para chegar em casa.
- Psiu! - a senhora me chama - Ei, psiu!
- Oi? - olho para senhora sem muita expectativa.
- Você toca violão?
- Toco sim.
- Acho lindo mulher que toca violão. Lindo.
- Obrigada, poxa. - disse, sem graça (porque não sei receber elogios, desta vez).
- Espero que continue tocando até o resto de sua vida, minha filha. Assim você terá todos os homens na sua mão.
- Obrigada, obrigada! - sorri grande.
Tomara, minha senhora.
Tomara.
II
Sexta-feira. Entrei no ônibus e percebi que estava cheio de rapazes bonitos. Mas sem muita expectativa, sentei na frente de um deles.
Distraía-me com a W3 sul quando o rapaz que estava atrás de mim me cutuca:
- Nossa, moça, qual é o nome do seu perfume?
- Putz, sabe que eu não sei?! Mas é um nacional, da Boticário, eu acho.
- Sério? É tão bom, adorei. Na verdade é tão bom que parece importado.
Ri mas fiquei reticente. Agradeci o elogio e virei para frente.
Escuto de supetão, baixinho, uns outros rapazes atrás dele comentarem:
"Nossa, que bicho burro! Pergunta o nome do perfume mas não pergunta o nome da menina".
Ri.
III
Fui comprar pão de manhãzinha na padaria perto de casa. Na fila, sedo o lugar para uma idosa de cabelos brancos e chinelo confortável de pano.
Olhando para minha tatuagem na coxa, a dona pergunta:
- Olha, isso daí não doeu não?
- Hein? - pedi que repetisse
- Isso daí, esse negócio aí na sua perna. O que é?
- Ah, é uma caravela. - levantei um pouco do short para que ela pudesse ver melhor. - Vê?
- Ah, tá. E esse negócio aí não doeu não?
- Olha, doer doeu. Mas é totalmente aguentável e eu n...
- ... Credo, Deus me livre. - fui interrompida - Essa juventude tá toda bagunçada.
E a senhora vira pra frente, prestes a ser atendida.
Pede alguns pães e eu volto ao jornal que estava lendo antes disto tudo começar.
Ela pega os pães e antes de sair dá uma última olhada na minha tatuagem. Faz uma cara de desgosto e conclui:
- Mas se te faz feliz, né?
E sai andando em passos apertados.
Mas se te faz feliz.
Então continue fazendo.
Estava eu chegando em casa depois de um exaustivo dia. Por estar saindo do estúdio, carregava meu violão num case enorme e alguns cabos que não cabiam na mochila. De chinelo, short e toda suada, passo na frente de um bar. Um senhor beberrão grita:
- Nossa, você toca? Eu também toco, vamos tocar juntos!
Nem ouso olhar para o sujeito e continuo andando. Atravesso a comercial e vejo já o meu prédio.
Um homem passa por mim e diz, aleatoriamente:
- Eu também toco! Mas toco de ouvido, não precisei de aula com professor não.
- Poxa, cara, que bacana! Me ensina! - respondi sorrindo, meio sem graça.
- Quem sabe um dia...! - proferiu o rapaz, sem parar de andar.
Chego, enfim, na última rua para chegar à minha casa.
Num dos bancos que ficam em frente ao bloco, estava sentada uma senhora que está sempre bem arrumada e passeando pela quadra, com jóias. Há anos ela faz a mesma coisa todos os dias. Morei fora, voltei, e ela continua lá. Finíssima.
Durante toda minha infância pensei que ela esperasse alguém. Mas hoje acho que ela quer arrumar um namorado.
Passei na frente do banco suando mais do que suei o dia inteiro. Desesperada para chegar em casa.
- Psiu! - a senhora me chama - Ei, psiu!
- Oi? - olho para senhora sem muita expectativa.
- Você toca violão?
- Toco sim.
- Acho lindo mulher que toca violão. Lindo.
- Obrigada, poxa. - disse, sem graça (porque não sei receber elogios, desta vez).
- Espero que continue tocando até o resto de sua vida, minha filha. Assim você terá todos os homens na sua mão.
- Obrigada, obrigada! - sorri grande.
Tomara, minha senhora.
Tomara.
II
Sexta-feira. Entrei no ônibus e percebi que estava cheio de rapazes bonitos. Mas sem muita expectativa, sentei na frente de um deles.
Distraía-me com a W3 sul quando o rapaz que estava atrás de mim me cutuca:
- Nossa, moça, qual é o nome do seu perfume?
- Putz, sabe que eu não sei?! Mas é um nacional, da Boticário, eu acho.
- Sério? É tão bom, adorei. Na verdade é tão bom que parece importado.
Ri mas fiquei reticente. Agradeci o elogio e virei para frente.
Escuto de supetão, baixinho, uns outros rapazes atrás dele comentarem:
"Nossa, que bicho burro! Pergunta o nome do perfume mas não pergunta o nome da menina".
Ri.
III
Fui comprar pão de manhãzinha na padaria perto de casa. Na fila, sedo o lugar para uma idosa de cabelos brancos e chinelo confortável de pano.
Olhando para minha tatuagem na coxa, a dona pergunta:
- Olha, isso daí não doeu não?
- Hein? - pedi que repetisse
- Isso daí, esse negócio aí na sua perna. O que é?
- Ah, é uma caravela. - levantei um pouco do short para que ela pudesse ver melhor. - Vê?
- Ah, tá. E esse negócio aí não doeu não?
- Olha, doer doeu. Mas é totalmente aguentável e eu n...
- ... Credo, Deus me livre. - fui interrompida - Essa juventude tá toda bagunçada.
E a senhora vira pra frente, prestes a ser atendida.
Pede alguns pães e eu volto ao jornal que estava lendo antes disto tudo começar.
Ela pega os pães e antes de sair dá uma última olhada na minha tatuagem. Faz uma cara de desgosto e conclui:
- Mas se te faz feliz, né?
E sai andando em passos apertados.
Mas se te faz feliz.
Então continue fazendo.
4 de abril de 2013
Anadota problemática de quarta-feira
I
Saí 30 minutos mais cedo do trabalho e coloquei na mente que aproveitaria tais minutos para resolver alguns problemas. Escolhi resolver o problema das camisas brancas: não as tenho. Queria algumas simples, sem estampa ou "gola V". De algodão, de preferência. Descobri que são vendidas por preço razoável nas Lojas Americanas.
Então, nesses 30 minutos livres, eu ia à Lojas Americanas.
Mas se você também trabalha numa rua movimentada, sabe que um tanto desse tempo é insignificante. E se você, além de trabalhar numa rua movimentada, também depende de ônibus, sabe que esse tempo é completamente insignificante.
Então foi tudo ilusão. Gastei todo o tempo dentro de um ônibus fedorento e quebrado. Presa no engarrafamento. Lendo Cortázar, que é pra dar mais dor de cabeça.
Não desisti. Cheguei ao shopping, comprei as camisas. Coisa rápida. (Quero dizer, "rápida". Lembre que eu estava em uma filial do shopping mais popular da cidade da Lojas Americanas, às 18 horas. Entenda).
Me deu fome.
Quis porque quis um milkshake enorme de ovomaltine. Mas estou de dieta, e tentando seguí-la. Me vi então pedindo um suco de abacaxi com gengibre num restaurante natural (ó!), quando, de repente:
- CPF na nota? - pergunta a caixa
- Quero não.
- Só um minutinho, tá bom?
- Tá. - respondo pegando a nota fiscal.
Sento em uma das mesas da praça de alimentação, bem em frente ao balcão que fui atendida. A caixa carrega o papel com meu pedido até a cozinha do restaurante.
Espero alguns minutos jogando qualquer coisa no celular. Sai a caixa da cozinha, batendo a porta, voltando ao caixa em lágrimas.
Me chamou atenção mas voltei ao jogo.
Daí que saí a possível cozinheira louca, com uma faca na mão. E um homem atrás, assustadíssimo.
- Eu vou te matar, sua piranha!
- Então mata, vai! Aqui, ó! - disse a caixa apontando para o próprio pescoço. A praça de alimentação vira um centro de rostos assustados e silêncio, pleno silêncio, silêncio que faz uma criança curiosa ao descobrir algo. Me levantei e já ia desistindo do suco, pegando minha bolsa e reclamando em perder sete reais assim. Mas a cozinheira maluca não deixou. Aos prantos, ela pergunta:
- De quem é esse suco?!
Parei e olhei para ela, já perto da escada rolante.
Ela repete:
- De quem é esse suco?! - e joga o suco no chão. Volta a ameaçar a caixa - Olha aqui, minha filha, tu tava me testando. Se você tá achando que aqui as coisas são assim, vou te mostrar como são. Estagiariazinha.
- O que que foi, minha filha? Não quer me matar? Estou aqui esperando, ó! - aos berros, encorajando a cena do crime. O homem tentou segurar a mão da mulher com a faca e levou um soco. Um cruzado, propriamente dizendo. Eu, parada na escada rolante, vendo meu suco no chão, fui empurrada por um monte de seguranças. Que receberam outros tapas.
Certeira, a possível cozinheira fez com que um desses tapas pegasse na caixa.
Aí a coisa ficou feia e alguns homens que assistiam à cena começaram a gritar.
Os dois ou três seguranças pouco podiam fazer para separar as duas moças loucas e, por alguma razão, a cozinheira insistia em perguntar:
- De quem é esse suco?
Eu não sabia se respondia ou não. Se permanecia lá quieta, se respondia de lá, se ia lá responder, se largava tudo e ia pra casa. Fiquei sem reação simplesmente porque sabia que era meu suco. E não faço ideia da quantidade de problemas que um suco pode gerar.
Até então.
Um dos seguranças conseguiu acalmar a caixa, que respirava fundo e chorava, chorava. Sabe-se lá porquê.
A mulher da faca ameaçou todos que estavam olhando de morte, ao segurança e à caixa. Tirou o avental, pegou a bolsa, largou a faca e saiu chorando, correndo.
Os homens que gritavam gritaram de novo.
Desci as escadas rolantes um tanto ainda assustada, confusa.
Me sentirei culpada até quarta-feira que vem.
Às vezes temos que nos permitir sair da dieta.
obs
algumas frases e palavrões foram excluídos do diálogo a fim de manter o bem estar social
Saí 30 minutos mais cedo do trabalho e coloquei na mente que aproveitaria tais minutos para resolver alguns problemas. Escolhi resolver o problema das camisas brancas: não as tenho. Queria algumas simples, sem estampa ou "gola V". De algodão, de preferência. Descobri que são vendidas por preço razoável nas Lojas Americanas.
Então, nesses 30 minutos livres, eu ia à Lojas Americanas.
Mas se você também trabalha numa rua movimentada, sabe que um tanto desse tempo é insignificante. E se você, além de trabalhar numa rua movimentada, também depende de ônibus, sabe que esse tempo é completamente insignificante.
Então foi tudo ilusão. Gastei todo o tempo dentro de um ônibus fedorento e quebrado. Presa no engarrafamento. Lendo Cortázar, que é pra dar mais dor de cabeça.
Não desisti. Cheguei ao shopping, comprei as camisas. Coisa rápida. (Quero dizer, "rápida". Lembre que eu estava em uma filial do shopping mais popular da cidade da Lojas Americanas, às 18 horas. Entenda).
Me deu fome.
Quis porque quis um milkshake enorme de ovomaltine. Mas estou de dieta, e tentando seguí-la. Me vi então pedindo um suco de abacaxi com gengibre num restaurante natural (ó!), quando, de repente:
- CPF na nota? - pergunta a caixa
- Quero não.
- Só um minutinho, tá bom?
- Tá. - respondo pegando a nota fiscal.
Sento em uma das mesas da praça de alimentação, bem em frente ao balcão que fui atendida. A caixa carrega o papel com meu pedido até a cozinha do restaurante.
Espero alguns minutos jogando qualquer coisa no celular. Sai a caixa da cozinha, batendo a porta, voltando ao caixa em lágrimas.
Me chamou atenção mas voltei ao jogo.
Daí que saí a possível cozinheira louca, com uma faca na mão. E um homem atrás, assustadíssimo.
- Eu vou te matar, sua piranha!
- Então mata, vai! Aqui, ó! - disse a caixa apontando para o próprio pescoço. A praça de alimentação vira um centro de rostos assustados e silêncio, pleno silêncio, silêncio que faz uma criança curiosa ao descobrir algo. Me levantei e já ia desistindo do suco, pegando minha bolsa e reclamando em perder sete reais assim. Mas a cozinheira maluca não deixou. Aos prantos, ela pergunta:
- De quem é esse suco?!
Parei e olhei para ela, já perto da escada rolante.
Ela repete:
- De quem é esse suco?! - e joga o suco no chão. Volta a ameaçar a caixa - Olha aqui, minha filha, tu tava me testando. Se você tá achando que aqui as coisas são assim, vou te mostrar como são. Estagiariazinha.
- O que que foi, minha filha? Não quer me matar? Estou aqui esperando, ó! - aos berros, encorajando a cena do crime. O homem tentou segurar a mão da mulher com a faca e levou um soco. Um cruzado, propriamente dizendo. Eu, parada na escada rolante, vendo meu suco no chão, fui empurrada por um monte de seguranças. Que receberam outros tapas.
Certeira, a possível cozinheira fez com que um desses tapas pegasse na caixa.
Aí a coisa ficou feia e alguns homens que assistiam à cena começaram a gritar.
Os dois ou três seguranças pouco podiam fazer para separar as duas moças loucas e, por alguma razão, a cozinheira insistia em perguntar:
- De quem é esse suco?
Eu não sabia se respondia ou não. Se permanecia lá quieta, se respondia de lá, se ia lá responder, se largava tudo e ia pra casa. Fiquei sem reação simplesmente porque sabia que era meu suco. E não faço ideia da quantidade de problemas que um suco pode gerar.
Até então.
Um dos seguranças conseguiu acalmar a caixa, que respirava fundo e chorava, chorava. Sabe-se lá porquê.
A mulher da faca ameaçou todos que estavam olhando de morte, ao segurança e à caixa. Tirou o avental, pegou a bolsa, largou a faca e saiu chorando, correndo.
Os homens que gritavam gritaram de novo.
Desci as escadas rolantes um tanto ainda assustada, confusa.
Me sentirei culpada até quarta-feira que vem.
Às vezes temos que nos permitir sair da dieta.
obs
algumas frases e palavrões foram excluídos do diálogo a fim de manter o bem estar social
13 de março de 2013
Anadota pra você interpretar como quiser, mesmo que eu sugira tal interpretação no final
I
Hoje, ou há alguma uma hora atrás (escrevo logo senão esqueço), peguei o quarto ônibus do dia para ir ao trabalho. Paguei a taxa de 1,50 reais - mais barato que a maioria dos outros ônibus aqui em Brasília, que chegam até 3,00.
Neste ônibus embarcam muitas pessoas diferentes, pois além de fazer todo o Eixo Monumental (nos leva aos Ministérios e outros prédios de responsabilidade Federal e Governamental) ele passa pela Nova Rodoviária. Esta, construída há não muito tempo atrás, possui linhas para o resto do Brasil. Logo, pego ônibus com engravatados e mal-trapilhos, por assim comparar.
Por acaso, escolhi o assento mais perto do cobrador. Apoiei os pés nos ferros que sustentam a cadeira dele, e voltei ao livro que estava lendo. Pessoas embarcando, todas elas diferentes e sem parar. Porém, dado um momento, a fila parou. Senti a diferença mas não quis erguer os olhos para observá-la. Não tinha porquê, até eu ouvir a voz rouca de uma senhorinha muito mais baixa que eu (veja bem, tenho 1,63) tentando se sobrepor à voz do cobrador (esta, grave e em tom chulo). A senhorinha se encaixava no grupo dos mal-trapilhos, sem dúvida. Carregava um saco de lixo preto cheio de não-sei-o-quê numa mão, e na outra uma pasta amarela que parecia ter todos os seus documentos dentro. Calçava chinelo e usava lenço na cabeça.
Gaga, a senhorinha pedia uma resposta ao cobrador:
- Es-es-es-este ô-ô-ô-ônibus vai para a no-no-nova rodoviá-á-ária, hein, moço?!
- Vai não, minha filha, já lhe disse.
- Ma-ma-mas o moço disse, lá fora, que ia!
- Ele errou. Não vai. Agora desça, vá.
E gaguejando, reperguntou ao moço se ia à Nova Rodoviária. O homem apoiou a mão na testa e soltou um suspiro esbaforido, lamentando.
A essa altura, eu já tinha erguido a cabeça para ver o que acontecera. Como todos os passageiros, eu permanecia calada e alheia à situação, mesmo sabendo que o ônibus ia sim à Nova Rodoviária. Depois me lembrei que estes motorista e cobrador sempre rejeitavam pedintes. Mas não tinha até então entendido o porquê d'ele achar que ela era pedinte, afinal de contas, apesar de mal vestida, não apresentava nenhum indício de que não poderia (ou conseguiria) pagar passagem. Seria muita pretensão pensarmos isso.*
Ela permanecia em pé, com o saco e a pasta em mãos. Esperando uma resposta. O motorista ainda não tinha chegado. Os passageiros, assim como eu, estavam apreensivos.
A mulher tenta gritar, mas por ser rouca não consegue. Acaba gaguejando mais ainda, e exigindo uma resposta:
- Mas su-su-su-sua mãe nããããããão lhe deu educação?!? Por que nãã-ão me re-re-re-re-re-responde?! Só po-po-po-por que eu não sei ler?!
Depois dessa última indagação, meu coração deu uma leve disparada - e eu tenho certeza que não foi pela quantidade estúpida de café puro, preto e quente que tinha tomado há um tempo atrás - embora não saiba o motivo.
Levantei para que a senhora me visse. Respondi, em alto em bom tom (como de costume):
- Vai à Nova Rodoviária sim, minha senhora.
Sentei.
Voltei ao livro. Mas é óbvio que não estava prestando atenção alguma na história.
"Puta que te pariu", sussurrou o cobrador. A senhora ficou sem resposta.
Não me agradeceu, nem me xingou. Nem a mim nem à minha quinta geração, como deve ter feito o cobrador, mesmo que mentalmente.
O motorista chegou e ligou o motor. A senhorinha abriu a pasta e fez com que o cobrador tirasse R$ 1,50 de 50 reais. O cobrador jogou o dinheiro em cima da mesinha de plástico.
Seguimos o caminho, minha parada chegou e a senhorinha estava sentada no último banco do ônibus, olhando a janela.
Como ela conseguiu cinquenta reais, não aprender a ler, ou fazer com que, possivelmente, todos os pertences dela caibam num saco preto de lixo eu não sei.
Também não faço a menor ideia de pra onde ela vai. De onde ela veio.
Tampouco quero saber.
Só que, se esclarecermos a dúvida do mundo - ainda mais o nosso, que é teimoso e velho - acredito que este gasta menos tempo para chegar ao seu destino.
somos todos passageiros
até o cobrador e o motorista
*Não que não sejamos pretensiosos. Mas é muita pretensão dizer que somos.
Hoje, ou há alguma uma hora atrás (escrevo logo senão esqueço), peguei o quarto ônibus do dia para ir ao trabalho. Paguei a taxa de 1,50 reais - mais barato que a maioria dos outros ônibus aqui em Brasília, que chegam até 3,00.
Neste ônibus embarcam muitas pessoas diferentes, pois além de fazer todo o Eixo Monumental (nos leva aos Ministérios e outros prédios de responsabilidade Federal e Governamental) ele passa pela Nova Rodoviária. Esta, construída há não muito tempo atrás, possui linhas para o resto do Brasil. Logo, pego ônibus com engravatados e mal-trapilhos, por assim comparar.
Por acaso, escolhi o assento mais perto do cobrador. Apoiei os pés nos ferros que sustentam a cadeira dele, e voltei ao livro que estava lendo. Pessoas embarcando, todas elas diferentes e sem parar. Porém, dado um momento, a fila parou. Senti a diferença mas não quis erguer os olhos para observá-la. Não tinha porquê, até eu ouvir a voz rouca de uma senhorinha muito mais baixa que eu (veja bem, tenho 1,63) tentando se sobrepor à voz do cobrador (esta, grave e em tom chulo). A senhorinha se encaixava no grupo dos mal-trapilhos, sem dúvida. Carregava um saco de lixo preto cheio de não-sei-o-quê numa mão, e na outra uma pasta amarela que parecia ter todos os seus documentos dentro. Calçava chinelo e usava lenço na cabeça.
Gaga, a senhorinha pedia uma resposta ao cobrador:
- Es-es-es-este ô-ô-ô-ônibus vai para a no-no-nova rodoviá-á-ária, hein, moço?!
- Vai não, minha filha, já lhe disse.
- Ma-ma-mas o moço disse, lá fora, que ia!
- Ele errou. Não vai. Agora desça, vá.
E gaguejando, reperguntou ao moço se ia à Nova Rodoviária. O homem apoiou a mão na testa e soltou um suspiro esbaforido, lamentando.
A essa altura, eu já tinha erguido a cabeça para ver o que acontecera. Como todos os passageiros, eu permanecia calada e alheia à situação, mesmo sabendo que o ônibus ia sim à Nova Rodoviária. Depois me lembrei que estes motorista e cobrador sempre rejeitavam pedintes. Mas não tinha até então entendido o porquê d'ele achar que ela era pedinte, afinal de contas, apesar de mal vestida, não apresentava nenhum indício de que não poderia (ou conseguiria) pagar passagem. Seria muita pretensão pensarmos isso.*
Ela permanecia em pé, com o saco e a pasta em mãos. Esperando uma resposta. O motorista ainda não tinha chegado. Os passageiros, assim como eu, estavam apreensivos.
A mulher tenta gritar, mas por ser rouca não consegue. Acaba gaguejando mais ainda, e exigindo uma resposta:
- Mas su-su-su-sua mãe nããããããão lhe deu educação?!? Por que nãã-ão me re-re-re-re-re-responde?! Só po-po-po-por que eu não sei ler?!
Depois dessa última indagação, meu coração deu uma leve disparada - e eu tenho certeza que não foi pela quantidade estúpida de café puro, preto e quente que tinha tomado há um tempo atrás - embora não saiba o motivo.
Levantei para que a senhora me visse. Respondi, em alto em bom tom (como de costume):
- Vai à Nova Rodoviária sim, minha senhora.
Sentei.
Voltei ao livro. Mas é óbvio que não estava prestando atenção alguma na história.
"Puta que te pariu", sussurrou o cobrador. A senhora ficou sem resposta.
Não me agradeceu, nem me xingou. Nem a mim nem à minha quinta geração, como deve ter feito o cobrador, mesmo que mentalmente.
O motorista chegou e ligou o motor. A senhorinha abriu a pasta e fez com que o cobrador tirasse R$ 1,50 de 50 reais. O cobrador jogou o dinheiro em cima da mesinha de plástico.
Seguimos o caminho, minha parada chegou e a senhorinha estava sentada no último banco do ônibus, olhando a janela.
Como ela conseguiu cinquenta reais, não aprender a ler, ou fazer com que, possivelmente, todos os pertences dela caibam num saco preto de lixo eu não sei.
Também não faço a menor ideia de pra onde ela vai. De onde ela veio.
Tampouco quero saber.
Só que, se esclarecermos a dúvida do mundo - ainda mais o nosso, que é teimoso e velho - acredito que este gasta menos tempo para chegar ao seu destino.
somos todos passageiros
até o cobrador e o motorista
*Não que não sejamos pretensiosos. Mas é muita pretensão dizer que somos.
30 de janeiro de 2013
Anadota #5
1
Ontem fui ao shopping e entrei numa dessas lojas de departamento. Logo, surge uma funcionária me abordando:
- Vamos fazer o cartão da loja?
- Hoje não, obrigada. - e continuei andando. Ela me segue:
- Você já é "de maior"?
- Aham. - respondi sem parar de andar
- Então, é desconto, amiga!
- Hoje não, obrigada, moça.
Ela então olha para o meu crachá do trabalho que esqueci de tirar quando saí e então para de me seguir. Continuei andando e então, a alguns passos de distância, ela pergunta:
- Recusando desconto? Tá ganhando tanto assim, amiga?
Parei de andar, virei. E de longe respondi.
- Estou, amiga.
Nem tô.
2
Voltando para casa num desses ônibus lotados com cheiro de trabalhador, com meus fones gigantes ouvindo música no volume máximo. O que não significa muita coisa dentro de um ônibus, convenhamos.
Depois de meio caminho em pé, consigo um lugar para sentar ao lado de um homem magro, com diastemas e camisa social.
- Licença - eu disse ao sentar.
Mais um pouco do caminho, a música continuando e as pessoas descendo, o homem pergunta:
- Menina, o que é isso que você está ouvindo? - "menina", pensei. Aliás, foi a única parte que ouvi. Tirei os fones de ouvido:
- Oi?
- O que é isso que você está ouvindo?
- É Vivaldi, eu acho. "O Inverno", d'As Quatro Estações.
- Eu hein.
3
Fazendo a unha num salão de beleza, a televisão ligada e muitas mulheres.
O noticiário informa a mudança da Lei Seca. A repórter disse que "não importa a porcentagem, até um bombom de licor e a influência do álcool no seu sangue pode fazer com que você pague multa ou responda a um processo".
Uma moça que estava fazendo escova no cabelo, perguntou:
- Mas o que foi que ela disse?
E a cabeleireira respondeu:
- Que agora até um bombom de licor, com álcool, pode fazer você rodar no teste do bafômetro. Não importa quantos decibéis tenha.
E a moça reage:
- Nossa! Mas eles estão fogo mesmo, hein?
Ontem fui ao shopping e entrei numa dessas lojas de departamento. Logo, surge uma funcionária me abordando:
- Vamos fazer o cartão da loja?
- Hoje não, obrigada. - e continuei andando. Ela me segue:
- Você já é "de maior"?
- Aham. - respondi sem parar de andar
- Então, é desconto, amiga!
- Hoje não, obrigada, moça.
Ela então olha para o meu crachá do trabalho que esqueci de tirar quando saí e então para de me seguir. Continuei andando e então, a alguns passos de distância, ela pergunta:
- Recusando desconto? Tá ganhando tanto assim, amiga?
Parei de andar, virei. E de longe respondi.
- Estou, amiga.
Nem tô.
2
Voltando para casa num desses ônibus lotados com cheiro de trabalhador, com meus fones gigantes ouvindo música no volume máximo. O que não significa muita coisa dentro de um ônibus, convenhamos.
Depois de meio caminho em pé, consigo um lugar para sentar ao lado de um homem magro, com diastemas e camisa social.
- Licença - eu disse ao sentar.
Mais um pouco do caminho, a música continuando e as pessoas descendo, o homem pergunta:
- Menina, o que é isso que você está ouvindo? - "menina", pensei. Aliás, foi a única parte que ouvi. Tirei os fones de ouvido:
- Oi?
- O que é isso que você está ouvindo?
- É Vivaldi, eu acho. "O Inverno", d'As Quatro Estações.
- Eu hein.
3
Fazendo a unha num salão de beleza, a televisão ligada e muitas mulheres.
O noticiário informa a mudança da Lei Seca. A repórter disse que "não importa a porcentagem, até um bombom de licor e a influência do álcool no seu sangue pode fazer com que você pague multa ou responda a um processo".
Uma moça que estava fazendo escova no cabelo, perguntou:
- Mas o que foi que ela disse?
E a cabeleireira respondeu:
- Que agora até um bombom de licor, com álcool, pode fazer você rodar no teste do bafômetro. Não importa quantos decibéis tenha.
E a moça reage:
- Nossa! Mas eles estão fogo mesmo, hein?
2 de outubro de 2012
Anadota
Minha terça-feira se resumiu a essa preocupação: procurar meu moletom por todos os cantos, voltar em lugares que já passei, e de repente, descobrir que estou o vestindo.
Porque Ana Julia que é Ana Julia vive assim.
Aliás, me lembrem de comprar o Hot, Cool and Latin do Eric Dolphy.
31 de agosto de 2012
Anadota 2
[1]
Eu e minha mãe falando sobre tatuagem; qual desenho eu faria. Sugeri algum instrumento musical:
- O que você acha de um violoncelo?
- Violoncelo?
- É, já não toco mais, mas ainda faz parte de mim.
- Não sei, não parece significar muito para você - ela respondeu.
[silêncio]
- Por que você não tatua algo atual? Que você toque hoje, tipo um saxofone?
[silêncio]
- Mãe, eu toco trompete.
- Ah, é!
[2]
Eu e minha mãe assistindo um filme. A música que toca na cena é Orange Colored Sky, do Nat King Cole.
- Night King Cole!
- É NAT King Cole, mãe...
- Ah... É tudo parecido, tudo preto!
Eu e minha mãe falando sobre tatuagem; qual desenho eu faria. Sugeri algum instrumento musical:
- O que você acha de um violoncelo?
- Violoncelo?
- É, já não toco mais, mas ainda faz parte de mim.
- Não sei, não parece significar muito para você - ela respondeu.
[silêncio]
- Por que você não tatua algo atual? Que você toque hoje, tipo um saxofone?
[silêncio]
- Mãe, eu toco trompete.
- Ah, é!
[2]
Eu e minha mãe assistindo um filme. A música que toca na cena é Orange Colored Sky, do Nat King Cole.
- Night King Cole!
- É NAT King Cole, mãe...
- Ah... É tudo parecido, tudo preto!
22 de maio de 2012
Anadotas #1 - Não são bem anedotas
As atrasadas, que estava pra postar, mas esqueci.
(22 de maio de 2012)
(30 de abril de 2012 - depois do feriado da Páscoa)
(22 de abril de 2012. Detalhe: isso porque nem vi o show. Vi o Gil saindo do palco)
(22 de abril de 2012. A que melhor me define. Inclusive pelos braços tortos)




