25 de maio de 2011

Inexiste título

nó (s)

agora é questão de semântica.

23 de maio de 2011

Clavícula

antinflamatório não poupa dores
pois não utiliza argumentos
age involuntariamente
quando a dor vem

normalmente vem quando eu acordo
ou quando lembro do que houve
mas assim como antinflamatório
não poupa dores

sem nem pensar duas vezes
não poupo amores




e corações, e tatames, e trompetes, e os plurais do teu nome...

21 de maio de 2011

Escapulário

quando você segura tua corrente de ouro e diz não quero saber de mais nada
eu não quero saber se você mente ou o que você quis dizer
se ignorância é felicidade
ainda tenho muita coisa para saber

20 de maio de 2011

Lei natural do animal que usa relógio

amanhã é sábado
depois é domingo
é um padrão.
pode ser que um dia mude
pode ser que não

desesperar-se para quê?
você será informado
do que acontecerá
desespere-se agora
você cego, amarrado
pelo que te faz saber que

amanhã é sábado
depois domingo

o futuro é óbvio.

16 de maio de 2011

703

sul
e as nuvens estavam lá
quase sempre
o sol estava lá
quase sempre
três dias
setecentos e três, digo
eu quase erro a quadra hoje
porque você estava lá
e agora nem o céu
está mais
azul



eu sou louca por você

11 de maio de 2011

Dentro de mim

eu amadureci, você viu
te quero, só eu sei
continuará assim.

8 de maio de 2011

Asfixia

Lembro da tarde em que eu morri.
Foi por simples falta de educação, carisma. Mas, acima de tudo, falta de sorte.
Não morava em uma cidade pequena suficiente para que todos me conhecessem; não morava em uma cidade grande suficiente para que estivesse sozinho em todos os momentos do meu dia.
Sempre tinha alguém. E era aí que o problema habitava.

A tarde em que eu morri era meio amarela. O sol estava visivelmente opaco. Mas não ao ponto de estar nublado: dava para caminhar sem precisar levar um guarda-chuva.
A Nova Reforma Ortográfica já tinha acontecido, eu estava, assim como o sol, visivelmente opaco. Apagado pela falta de hífens e acentos que antes existiam. Não seria problema se eu não tivesse que decorá-los para o tão temido vestibular.
Passei três anos da minha vida estudando para ele.
Na tarde em que morri, todos os meus colegas de turma estavam preocupados com vestibular. Afinal, este seria no próximo final de semana.
Final de semana, este, aniversário da minha tartaruga.


Morava só.
Só não me sentia sozinho por causa da tartaruga. Ela não tinha nome, e minha vizinha não a queria mais. E, mesmo antes desses meus três anos de estudo para vestibular, já tinha aprendido a me perguntar "por que não?". E foi justamente isso que falei quando ela - minha vizinha - perguntou em tom caridoso "você não poderia ficar com esta tartaruguinha?"
Pena que algumas pessoas entendem "por que não?" como "sim".
Mas não me arrependo.
Foi minha companhia durante alguns anos, até eu sair de casa.
Aliás, saí com ela.

E eu saía todo dia.
Sozinho.
E no começo saía pensando na tartaruga. Confesso que minha dúvida sempre foi: será tartaruga? Jabuti, talvez? e atravessava ruas, ruas, pagava e pegava ônibus e ônibus, carregando livros e livros sem saber quem morava comigo.
Sem saber de nada.
E meus três anos antes da tarde amarela foram bem rotineiros.

Não me arrependo.
Repito.

Ainda que rotina seja necessária, estressa.
E o vestibular estava me deixando tão irritado que fui perdendo os níveis de educação que já tinha com meus pais, amigos e porteiros.
Na tarde em que eu morri, não tinha cumprimentado o porteiro. Sabe como é, ele sempre vai estar lá.
Mas a gente esquece que nós não.


Quando eu já tinha desistido de saber se a tartaruga era jabuti, lembrei que já tinha cansado de pegar ônibus.
Precisava de um carro.
Quando eu já tinha decidido comprar um carro, olhei para a avenida: hajam.


A tarde em que eu morri foi por simples falta de ar.






terminado em sete de maio de 2011
para o murilo, para o mateus e para o diogo

7 de maio de 2011

Apesar de você

Acaba assim: população contra população.
Transformando cada vez mais a felicidade em conveniência, e não objeto de desejo, objetivo.
"Hoje eu quero ser feliz", ouvi na padaria.
Mas e amanhã?






há de seeeeeer outro dia

4 de maio de 2011

Metade

"eu
não sou mais
teu"
e não sorriu
"pois eu
não sou mais
tua"
e sorri.

3 de maio de 2011

Pessoal

Vejam bem.
Sou indecisa por natureza, seja por signo, por costume ou por razões indefinidas. Logo, quando tomo uma decisão (ou, em outras palavras, quando escolho algo) não é à toa. Não gosto de desperdiçar as coisas, muito menos tempo.
Tampouco se eu não fizer valer essa decisão - que para ser uma decisão foi pensada - será tempo (e às vezes muito tempo) desperdiçado.

Tenho tantos defeitos quanto qualquer um.
Talvez mais do que qualquer um.
Guardo-os para mim; e às vezes partilho-os num verso mal feito.
Esses defeitos me fazem cometer erros, os quais não passam de erros. Nada que eu deva me arrepender ou fazer voltar atrás. Até porque não tem como. Mesmo.

E se eu escolhi o que eu escolhi sabendo de todas as condições da minha vida, deixa.
Que eu não pensei só com o cérebro.




eu quero fazer música.

1 de maio de 2011

Súplica

Ah, mundo
Se você me ouvisse mais
Não se arrependeria.

29 de abril de 2011

amor, de novo

é como quando falta meia hora
você sabe que vai se atrasar
mas fica debaixo do cobertor
esperando o frio passar




fiz há tempos.

21 de abril de 2011

Ei, criança

A vida é muito rápida para você tratá-la desse jeito.
Presta atenção.
Sentimos fome, frio, carência, necessidade, vontade, ciúme, e até inventamos sentimentos.
Inventamos alguém para curá-lo.
Inventamos ainda uma forma de pagamento para que ele saiba o quão agradecido você é pelo resultado, afinal... Você continua sentindo fome, frio, carência, necessidade, vontade, ciúme, mas você parou de inventar sentimentos.

E então você perde suas tintas e não tem tempo de comprar outras.
E o tempo está passando.
Você gasta a maioria desse seu tempinho inventando outros sentimentos, mas, acima de tudo, inventando uma forma de pagamento que aumente, porque, afinal, hajam sentimentos.

O tempo passa.
Você arranja tempo pra comprar suas tintas.
Você as compra.

Já não tem mais o que inventar.


A vida é muito.
Você acha demais.

Vamos parar com esses achismos.

20 de abril de 2011

Ah.

tsc
e eu
tomando a
liberdade
se sentir
saudade
assim.




tsc.

16 de abril de 2011

Conjugue o que não se vê

some,
desaparece
mas vai até
onde eu possa te
encontrar


afinal
teu sorriso
serve pra outra coisa
senão
distrair
meu coração?

foge,
esquece
todo verbete
que você souber
sobre quem não mais te

15 de abril de 2011

Resenha de quem anda muito

Hoje eu tô cansada.
Mas não é cansadinha, é cansada mesmo. Me arrastando pelos cantos da capital do Brasil. Porque é sexta, mas ainda é dia letivo.
E eu tenho (tinha) uma lista de coisas para fazer.

A vida só é difícil para quem não se dá bem com ironia.
Afinal, a vida é a maior delas.
Eis um dos meus (poucos) fatos.

No meio dessa minha lista de coisas, estava eu. Quieta, com um livro e muito peso na bolsa, pra variar. Ainda assim, eu, falante. Mas sempre com muito peso na bolsa.
Fui então, parar na rodoviária.
E se a vida é uma ironia, a possibilidade das pessoas transitarem é uma ironia quase maior.

A maior parte da população que não presta transita perto da rodoviária. Elas vão e vem.
Junto com o que faz com que elas não prestem; junto com as pessoas que prestam; e junto com as pessoas que observam.
Quietas,
falantes,
e sempre com muito peso pra carregar.

E então você vê um de paletó. Não muito diferente dos que não prestam. Mas se a vida é uma ironia, se as pessoas transitarem também é uma ironia, Brasília, cidade cheia de vida e de (cada vez mais) pessoas é, indubitavelmente, uma ironia. Das grandes.

A rodoviária é perto do que administra você.

E eu só queria compartilhar esse pensamento.

14 de abril de 2011

(Lembrete)

tudo muda o tempo todo no mundo ao mesmo tempo
mas cada um tem sua velocidade
mantenha a sua.

9 de abril de 2011

Àsas

quem me dera, às vezes, poder voar
quem me dera asas nas vezes em que quis
quem me dera poder pousar quando quero

6 de abril de 2011

Pra quem eu reencontrei no ônibus certo

Sou assim, feita de épocas.
Épocas de choro, épocas de texto, épocas de amor, e hajam épocas. Quase sempre, essas, misturadas.

Sou assim, feita de lembranças.
Porque minha memória é péssima. Então eu não memorizo seu rosto, eu não memorizo seu nome. Eu lembro.
Se eu lembrar.

Mas ah, eu queria saber - para lembrar - seu nome.








Numa dessas épocas de amor, ano passado (ou no começo dele), eu não prestei a devida atenção para onde o ônibus ia e errei o caminho.
Sou dessas que erra duas vezes, e erra de cabeça erguida.
Erra duas vezes, mas por motivos diferentes.
E da primeira vez foi por desatenção.

E até eu descobrir que era o ônibus errado, eu já tinha descobrido você.
E foi assim, platônico, sabe? Bom, provavelmente você sabe.
E se você sabe, que sorte, ah, que sorte a sua. Nossa, digo.



Da segunda vez já não foi desatenção.
Foi vontade mesmo.

5 de abril de 2011

Eu não sei rimar à (a) distância

se fossemos ska
mais perto
talvez não desse assim,
tão certo

4 de abril de 2011

pra fazer feliz a quem se ama

se quando te olham
a felicidade cresce
te olho de novo.

29 de março de 2011

Juliana

confusão
ela
mas não demonstra
assim sendo
imensurável
assim tendo
algo imensurável
dentro de si
que precisa sair,
voar,
explodir,

então
ela
escolhe
palavra
do seu jeito, assim
cabível
que exprimem
surgem e baseiam-se
em

metáfora
paradoxo
e
amor






com as palavras mais bonitas da aula!

26 de março de 2011

[com batom]

[sem argumento]

[sem medo]

[sem roupa]

25 de março de 2011

Vida bandida

Daí o sinal fecha. E só tem você esperando para atravessar.
O sol bate diretamente no seu olho, aí você faz cara de quem comeu limão e se posiciona atrás do semáforo.
Aí quase não tem carro passando.
E você pensa seriamente em passar no sinal vermelho. Mas é errado, e como diz a sua avó: "carros brotam", "sempre vai existir alguém para atropelar você".
E você não pode morrer agora. Afinal, ainda restam alguns exercícios de química, duas músicas no trompete e Deus, você ainda nem roubou o coração de alguém para que aconteça algo possivelmente sério e bonito na sua vida.
E o sinal continua fechado.
Aí aparece alguém do outro lado.
E alguns carros voltam a passar, mas o sinal continua lá: fechado. Vermelho, pra você.
Daí você começa a ajeitar o cabelo, finge que o telefone está tocando ou que você recebeu alguma mensagem. Só pra dizer que você é uma pessoa ocupada, segura, e confiante; que você não se importa em ficar lá, dois minutos em pé, porque tem uma agenda lotada; mas vão ajeitar pra você. Ou algo assim, sabe.
Daí o ser humano que está do outro lado se arrisca, e em menos de dez segundos está ao seu lado, seguindo em frente.
E você pensa "droga".

Então respira fundo,
esquece tudo o que sua avó diz,
desvia de um ou dois carros,
alguém buzina pra você,
alguém buzina pro seu corpo,
o sol continua na sua cara,
você joga o pé direito no meio fio,
você joga o peso no pé direito;
você está do outro lado.
E exatamente neste instante, o sinal fica verde.

24 de março de 2011

encarnação

hoje a noite vaga em mim
com toda a reciprocidade
procurando o fim
dessa maldita saudade

vou procurar na boemia
uma razão para voltar
esquecer, lembrar, querer todo dia
mais uma garrafa no bar

saudade da menina bonita
que me deixou cambaleando
em mim mesmo

19 de março de 2011

Fábio

Não leve a sério o que não é sério. E não me leve a sério quando estou fora do mesmo.
Se o que houve foi culpa minha; pedir desculpas seria suficiente. Se o que houve foi culpa do destino, acaso, ou sorte; eu peço perdão.
Deveria ter impedido, podia ter impedido. Mas não quis.

Às vezes não ver o essencial acaba nos deixando realmente cegos.

15 de março de 2011

Pseudônimo

pra amor
não importam
consoantes
e quão soantes
são as vogais

6 de março de 2011

Cinco pra dois

Ele costumava cozinhar para mim, e isso me fazia sorrir.
Gostava muito de fazer fondue e omelete de agrião, e dificilmente acertava o ponto do omelete, mas quando acertava, dava-lhe um beijo na testa. Carinho, assim, que nem ele demonstrava comigo.
Ele apreciava muito o paladar, e falava muito do gosto do meu beijo. Seja ele na testa, seja ele na boca. Dizia que tinha um sabor que nenhum gourmet consegueria imitar.
Ia aos sábados para a casa dele, comíamos, víamos um filme, e eu ia embora.

Eu sempre levava o filme.
Ele morava perto de mim.

Eu costumava levar Hitchcock; na época em que eu ainda tinha como meta assistir todos os filmes.
A gente chegou muito perto, muito perto mesmo. Mas até hoje - e faz um tempo que isso aconteceu - eu não terminei de ver todos os filmes do Hitchcock.

Nós não terminamos a lista de filmes porque o paladar é o sentido que enjoa mais fácil.
E comíamos e víamos filmes.
Então, num sábado quente, paramos de comer. E o sentido que é a visão, não enjoou dos mistérios.

Então, num sábado frio, a fotografia do Hitchcock foi trocada por alguns olhares no sofá amarelo da sala.
Daí, o sentido que é a visão, enjoou.

E nós tocávamos alguns instrumentos, sussurrávamos mentiras e ríamos, ríamos.

Passou um tempo, e só sobrou o tato.
E quando nós percebemos que não passava de uma coisa carnal, já não era mais sábado, e nós não tínhamos mais o que fazer.


Acaba assim,
quando tem que durar.

2 de março de 2011

Between the bars

que o passado cabe
numa taça de vinho
porém, ainda se sabe
(e sempre se soube):
não se brinda sozinho.

Sei lá.

Homo sapiens é só um termo, Ciência.
Ser humano sente fome.