16 de janeiro de 2011

Traga um copo de água para Carolina

Cessa, menina.
Não há porquê chorar por um amor que passou.
Para ser sincera, não há porquê na maioria das saudades.

13 de janeiro de 2011

Vou de jangada visitar o teu amor

- Vou visitá-lo. Quer que eu mande lembranças?
- Diga a ele (que eu sinto sua falta, e que eu o quero em meus braços novamente. Que ele foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses, e que tenho feito poesia usando seu nome. Que me desejo-lhe todo bem que um ser humano pode possuir, e que peço desculpas por não me declarar antes, por não telefonar antes, e por não ir visitá-lo antes. Mas diga a ele, antes de tudo, que eu sinto sua falta) que eu mandei um beijo.

11 de janeiro de 2011

Areia

ri
mar-ei
quando
tu, onda
voltar
para
mim

4 de janeiro de 2011

Shout

3 de janeiro de 2011

Serro, Minas Gerais, há alguns anos atrás

Pois-se Zé no balcão do boteco, esperando a pinga, quando convidaram-no para mais um jogo de dominó.
A morena bonita que desfilava na calçada passou, e foi quando Zé se desconcentrou que a pinga pingou em cima das peças, fazendo o coral de jogadores boêmios fazer algum grunhido emborrecido. Tiveram que enxugá-las, o que gastou algum tempo.
A esposa do campeão de dominó entrava no boteco sempre nesse horário, reclamando do almoço que esfriou, reclamando dele sempre ganhar no jogo, reclamado dele não aparecer mais em casa.

Simultaneamente, as crianças jogavam futebol do lado de fora do boteco, no meio da rua. Os pés calejados faziam com que eles se esquecessem dos cacos de vidro da garrafa que foi quebrada na noite anterior, numa briga pela tal morena que passava na calçada e na mente dos apreciadores do álcool.
A polícia local não tinha do que reclamar.

O boteco pacato era rotina, e só de lembrar dessa passagem na minha história, me vem aquelas palavras conclusivas de cidade pequena, de quem se põe em mesa de boteco a pensar:

Pois é.

2 de janeiro de 2011

barriga

despedaço-me em partidas
descompasso-me em sambas
desacelero-me em passos
e quando esbarro em ti nesses plurais
minhas pernas, estantaneamente
estontaneamente
ficam bambas





outro jogo de palavras que foi escrito de forma trêmula dentro de um ônibus
eu realmente espero que 2011 seja o melhor de todos os anos, para nós.

28 de dezembro de 2010

Sinapse

o tempo passa como quem tem pressa
e as vogais vagam por ele querendo ser consoante
entrelaçando-se, fazendo promessa
o ponto surge e num instante
passou

27 de dezembro de 2010

Tua

Numa hora dessas, parar de chorar é cessar todo o luto.
O que é um pecado.
O luto não deve ser eterno, as pessoas não devem ser petrificadas em nossos corações. Você sofrerá de má memória num futuro - distante ou não - e talvez você lembre apenas o motivo dessas lágrimas todas.
De forma poética, diria para você chorar enquanto ainda é tempo. Enquanto você se lembra de todos os detalhes, o porquê você está chorando. Mas eu não quero fazer poesia hoje.

E se você precisar de colo,
aqui estão minhas palavras.

25 de dezembro de 2010

endereço

andei pensando sobre as ruas
e pensando andei sob as ruas
que quando me dei conta
já tinha passado da sua

24 de dezembro de 2010

Isaac

Fiz orelha nas páginas dos meus livros, e, profundamente, me arrependi.







desculpa.

23 de dezembro de 2010

é, meu amor

a morte é um estado físico. desculpe-se com a culpa, com o orgulho, com a esperança, e aceite o fato.
é um fato, pouco me importa se você chama de teoria.
porque, ao contrário de você, ainda não aceitei o fato de religião ter virado política. religião é composta de fatos, você não deve discutir qual é o melhor, eleger uma, eleger um messias, eleger uma palavra.
o dicionário não está aí só pra você saber o significado das palavras, e ainda acho um pequeno descuido meu ter escolhido (não eleito) uma palavra preferida.

extraordinário.

a sonoridade, o significado, o r, o acento agudo, tudo soa perfeitamente bem pra mim. extraordinário é um adjetivo.
logo, posso considerar que, extraordinário é um estado físico.
você é extraordinário, você está extraordinário.

mas, sinceramente? você foi extraordinário.

a vida é extraordinária, mas a morte, mais ainda. a morte, para sempre, vai estar. a vida cansa, e fica assim; foi extraordinária.

tira esses estados e esses físicos todos do mundo, e não temos fronteiras.
não temos leis, não temos gravidade.

a consequência (disso, da palavra, do x e do r) é o estado físico mais bonito que existe no dicionário.

17 de dezembro de 2010

Lolita

moreno brasileiro
vem me arrancar
esse frio passageiro
da espinha

16 de dezembro de 2010

Desa(bou)fo

Vocês não andam cansados não?
Dessa correria por preço e vaga o dia inteiro. Dessas pessoas que não cortam o cabelo nunca, e que só pensam em se casar. Dessas fofocas que a novela gera enquanto o Estado toma conta de você, desses políticos mau-caráter que fazem você ficar despreocupado.
Você não anda cansado não? Dessas poesias com dissonâncias diferentes, das pessoas correrem para emagrecer e para não pegarem chuva, do preço da banana ter subido, da água de coco ter acabado, de da vontade, dessa nossa vontade, ser rala.
Vocês não andam cansados não? É que dormir mal deixa-nos, naturalmente, cansados. Dessas noites em que você coloca a cabeça no travesseiro e revira-a revirando-se atrás de um problema que não vai sumir enquanto você estiver deitado.
Vocês às vezes não param de respirar?

13 de dezembro de 2010

Big Bang

a clareza que
ele
dá
os outros
escuri
dão

Vejam bem, meu povo

Abram os olhos: somos responsáveis por recuperar todo o juízo que a Ciência e a Religião perdeu.

9 de dezembro de 2010

decidi no banho

onde vou
pousar eu
não sei

eu só
quero ir
na
janela

7 de dezembro de 2010

simples assim

Inspirei.
Escrevi.
Expirei.

6 de dezembro de 2010

Mátria

Ah, menino
Não deixe que lhe mintam sobre a solidão
Que mudem seu olhar divino
Ou que maltratem seu coração;

Ah, menino
De todas as coisas, o amor é a mais vã
Acabará mudando seu destino
Quando você chegar de viagem na manhã;

Ah, rapaz
O tempo passa e você já percebeu
Que ele desmente as coisas que você já é capaz
Que tudo o que já foste teu
Que as coisas mais ruins e belas
Não lhe trarão paz

3 de dezembro de 2010

Litoral

aí eu tento não pensar em nada triste
quando me vem todo o amor que existe
e que pros teus braços eu não vou voltar

que tímido o tempo passa
que os minutos em que você se arrasta
serão os últimos a ficar

aproveite, amor. aproveite
antes que você feche os olhos, antes que você se deite
eu já vou ter fugido pra ver o mar

1 de dezembro de 2010

Naked as we came

não é necessário
de lembrar quando
como e porquê
nascemos
para sermos
e simplesmente sermos
felizes

28 de novembro de 2010

Colo

saudade
só dá
quando já
é
tarde

25 de novembro de 2010

o que é verdadeiro, voa

todas as paixões verdadeiras
vão embora
as que permanecem
são apenas
fiéis.

23 de novembro de 2010

A fonte da juventude não vende na farmácia

O jovem não se preocupa com o que é o amor.
Se preocupa em como vai declará-lo.
E veja só quanta vitalidade há em tempos assim.

22 de novembro de 2010

Lê

te transformei em verbo
pra que você
em mim
fizesse mais

21 de novembro de 2010

Caminho das pedras e das igrejas

Era domingo e Deus estava furioso.
As costas naquele dia pesavam mais do que o normal, o que era um lamento, já que os domingos eram feitos para descansar. Mas ainda havia um bom pedaço de estrada para ele andar.
Tinha parado ali consciente. Sabia que ia demorar para voltar; ainda mais voltar a pé. Calado. Só.
Não praticava misantropia. Só não gostava de falar, e não era observador como elas imaginavam. Nem sonhador, como ele queria. Talvez, ele fosse uma daquelas pessoas opacas sem muita cor por dentro, mas isso, nem ele sabia. Não gostava de pensar em si mesmo, e nem no próximo.
Não gostava de pensar.
Talvez por isso ele também não tenha pensado em suicídio. Mas acho que se pensasse, não o faria: era covarde.
Pra ser sincera, ele era como a maioria das pessoas.

Ainda era domingo, e já ia anoitecer.
Enquanto jogava seu corpo em passos largos, rezava e pedia com profundo arrependimento uma segunda chance. Para ser mais e querer menos. Porque na verdade, ele era um bom homem.
Sempre fora.
Mas não tinha caráter. Não tinha cultura. Nem pátria.
Deus às vezes lembra desses filhos: os que não sofrem; os que fazem drama; e os que só acreditam. E quando Ele lembra, deve bater angústia. Acho que bateria em mim se eu fosse pai, sabe. Não ter criado-os direito.
Ter dado caminhos demais.
Chances demais.
Ter desperdiçado seis dias, para no sétimo, algo fazer sentido.

20 de novembro de 2010

o pra sempre é sempre um triz

o reflexo do vidro da varanda
que a gente vê da rede
é o futuro que a gente quer
assim, balançando
sem cair

17 de novembro de 2010

Úmido

se chovesse agora
diria que
você é a melhor
coisa desde
que
choveu

14 de novembro de 2010

dá de lá bandeira qualquer

o vento que faz
a onda bater
nas costas da maré
é o mesmo
que me faz
arranhar as
suas.

12 de novembro de 2010

É tudo uma questão de (ponto de) vista

Girou a pedra do isqueiro uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
- Não acredito.
Olhei para o lado, tirei o cigarro da boca dele e coloquei na minha. Mordi, mostrando a arcada dentária superior. Com a mesma brutalidade que tirei o cigarro, tirei o isqueiro. E girei a pedra do isqueiro uma vez.
Girei duas.
E acendeu.
Quase traguei. Ele pegou o cigarro de volta antes que eu pudesse.
- E Barcelona, Ana?
- Não sei, amor. Tinha tudo planejado, e essa vontade não passa, mas eu tenho outros planos na frente.
- Amor?
- Amor.
E roubei o cigarro dele outra vez. E ele tirou de mim mais uma outra.
- Não quero você com câncer.
Nunca me quis com câncer também. Já me imaginei com câncer, mas querer, nunca quis. E estava tão frio do lado de fora daquela estação de metrô numa quinta-feira às sete horas da noite, que qualquer câncer era bem-vindo.
Talvez ocupasse o vazio que eu tinha no peito.
- Amor. Olha o som do metrô. Eu tenho que ir.
E me agarrou. Não me agarrou, me abraçou e me beijou com tanta força como quem quisesse remediar. Eu não quis abrir os olhos.
Mas eu abri, e os dele já estavam abertos.
E eu pensei: "Ah. Todos iguais".

Ele tinha uma tatuagem de pirâmide à mostra no braço direito. Aquela regata vermelha lhe caia bem. Sabia as palavras certas nos tempos certos. Tinha algumas marcas de expressão na testa contrastando com uma barba-por-fazer extremamente íntegra, era querido porque eu simplesmente o quis.
Mas ele abriu os olhos.
Eu o empurrei.
- Não.
E ele não sabia o que eu queria.
Não sabia qual era a cor dos meus olhos.
E não sabia tragar.

Amor é um adjetivo. Os que abrem os olhos e não tragam têm menores chances de um câncer.
Amor é um verbo no infinitivo. Os que fecham os olhos e tragam têm maiores chances de um vazio no peito.

10 de novembro de 2010

Deixa pra amanhã

Você deve saber: adiar um sonho não é uma coisa fácil. Parece até fácil. Mas dói.
A dor de adiar um sonho sempre vai ser menor do que parece. Mas quando seu coração está no chão, todo drama é perdoável.

Era uma fila enorme.
Cheguei lá uma hora antes de abrirem as inscrições, e, Deus, que fila enorme. Vários jovens e senhores sentados no chão. Sentei atrás de um rapaz bonito de dreads, e olhei para o teto rezando (mesmo que de certa forma) para o tempo passar mais rápido, para algumas pessoas desistirem.
Mas eu esqueci de rezar para ter vaga.
E isso não importou na hora. O rapaz de dreads olhou para trás e sorriu:
- Qual é o seu instrumento preferido?
- Violoncelo. - bem assim. Com um ponto final tão visível que pesou na resposta.
- Nossa, que legal! - espontâneo - O meu é o saxofone.
- Gosto de saxofone.
- Gosto de violoncelo.
E quando ele respondeu isso, sorriu como da primeira vez já se levantando:
- Bem, violoncelista, tenho coisas a fazer. Quando eu chegar lá, não vai ter mais vaga para inscrever. Prazer, hein.
- Se cuida.
Parecíamos íntimos.
De uma forma ou outra, música intima quais quer seres que a sintam. E tenho certeza que todos naquela fila eram íntimos.
Sonhar intima também.
Junte os dois. Talvez, quando você conseguir realizar o seu sonho sobre a música, seja como um orgasmo. Mas isso não convém (agora).
Sentada, me rastejei um azulejo grande para a frente. E começou a chover.
Estava de jeans e camiseta, sem casaco, com uma bolsa verde e esperando algum milagre.
Alguma piedade.
E talvez aquela força do destino.
Sabe como é, hoje é quarta, hoje eu acredito em Deus.

E então meu telefone toca:
- Oi, Ana.
- Oi.
- Lembra de mim?
- Não esqueceria sua voz.
- Tá ocupada?
- Não.
- Estou na W3 sul, no mesmo lugar de sempre. Me encontra.
E desligou.
Tão tentador quanto violoncelo.
E tão irritante quanto o tempo.
Não sei quanto tempo não o ouvia. O via. Sem dúvidas, eram saudades daquelas que corroem, mas a fila estava enorme e eu tinha um propósito.
Passei as duas últimas semanas estudando teoria musical para uma prova que, depois de eu ter saído daquele prédio baixo, de tijolos e sinfonias, eu nem vou chegar a fazer.

Provavelmente, alguém pegou a minha vaga.
Sonhos, destino, e principalmente a sorte são coisas injustas.
E que assim sejam: sacríficios e deixar para a semana que vem faz parte da vida de quem se apaixona.

Pela música;
Pela chuva;
Pelos objetivos;
E pelos outros.